31 de janeiro de 2010

Paraíso

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- Agora a festa vai começar - gritou, animado.
- Aonde vamos? - perguntei, curiosa.
- Já ouviu falar nas sete maravilhas do mundo?
- Ouvi falar, ouvi, mas nunca conheci uma. - murmurei.
- Hoje você vai conhecer a oitava...
- E qual é?
- A que vai ver agora! - falou, como se fosse óbvio. - Agora vamos, o pessoal não vai esperar para sempre!
- Tudo bem - concordei, hesitante. Ele me puxou pela mão e saímos correndo. Depois de uma trilha cercada de muitas árvores saímos em uma piscina gigante. Estava vazia. Parecia ser usada como palco. Lá dentro estavam vários meninos e algumas meninas também. Todos gritavam uns com os outros e riam. - É aqui? - perguntei.
- É. - falou, rindo - e ali também. - apontou para uma quadra de areia. Lá varias pessoas jogavam vôlei e peteca.
- É tão naturalmente perfeito... - sussurrei para mim mesma.
- É mesmo. Eu e meus colegas chamamos isso aqui de "ilha do paraíso"... Nosso clube particular. Só gente legal vem aqui! - completou
- Hmm... Que bom, agora sei que sou legal! - brinquei. Ele riu.
- Pessoal! - gritou. Alguns meninos vieram até a gente.
- Você tem razão - falou um - Ela é mesmo linda. - corei.
- Ele tem sorte - murmurou outro. Com essa eu tive que rir... 
- Calem a boca - falou Pedro - Fala pro Japa ligar, avisa que já tá todo mundo aqui. - ele se virou pra mim. 
- Vai colocar o biquini. Temos uma festa aqui! - falou, claramente animado. 
     Corri para dentro do banheiro e tirei o vestido e o chinelo. Coloquei tudo dentro da bolsa e voltei. Menos de cinco minutos. 
- É, você tem muita sorte - repetiu o colega.  
- Que foi? - perguntei a Pedro 
- O cara aí acha que toda mulher demora um dia pra trocar de roupa só porque a ex dele demorava... - disse, despreocupado - Mó tapado! - provocou. 
- Ah é? - perguntou 
    O "cara aí" saiu correndo atrás dele. Pedro desceu correndo as escadas, com um tubo na mão. Eu não fazia ideia de que tubo era aquele, isso até ele apertar e espirrar um monte de espuma na cara de outro garoto. 
- Não vai vir não? - gritou um cara de olhos puxados, que imaginei ser o japa.
- Já fui! - gritei, entrando na brincadeira. Desci as escadas correndo também e me juntei aos outros. De repente senti em minha pele o que era o "fala para o Japa ligar". Um jato forte de água me deixou toda molhada. Pedro e o amigo que, pelo o que ouvi gritarem, se chamava Rafael, começaram a rir. - A piscina ainda tá vazia e eu já me molhei? - zombei comigo mesma.
- Pelo menos a gente vai se molhar, como prometia a palavra clube... - sussurrou Pedro em meu ouvido. Depois me beijou mais uma vez - Pelo menos estou te beijando, como prometiam as palavras estou apaixonado por você...
- Você é tão fofo... - sussurrei para ele.
- Tô sabendo - fez voz de machão. Eu ri, ele riu também.
- O que significa isso tudo, afinal? - perguntei.
- Que estamos namorando, eu acho... Isso se estivermos de acordo. - o encarei incredula. - Que foi?
- Eu aceito fugir com você e me pergunta se eu estou de acordo? - fingi seriedade 
- Foi só por educação - confessou. Dei um tapa de leve em seu braço. - Ai! Você bate forte! - . brincou. Eu ri. - Vem, quero que você conheça umas pessoas.  
    Ele me levou até um grupo. Nele me apresentou Vitor, Fábio, Japa - que na verdade se chama Kyle e Luana, namorada do Vitor. Rafael eu já conhecia.
    De repente a mangueira voou para dentro da piscina, molhando todo mundo. Deixaram lá até que enchesse o bastante. Subimos para a primeira parte da larga escada. Ficamos sentados lá. De vez em quando pulávamos dentro da piscina improvisada.
    Bem melhor do que ir ao clube.

Quando percebemos já era bem tarde. Trocamos de roupa rapidamente e voltamos correndo por onde viemos. 
   Logo estávamos na pracinha. Continuamos a correr, viramos duas vezes a esquerda, corremos de volta pela ladeira cheia de curvas e finalmente chegamos à estação de metrô.
   Mesmo eu insistindo Pedro acabou pagando minha passagem. Descemos as escadas e esperamos impacientemente. Assim que o trem parou, pulamos dentro dele. Quase caí, mas Pedro me segurou. 
   De repente o que foi o correndo da ida virou o interminavel da volta... Parecia que nunca chegávamos à estação Central. 
   Quando chegou, suspiramos aliviados e saímos junto com as outras pessoas. 
   A paz durou pouco. Tinhamos menos de quinze minutos e aquela caminhada nos tomaria pelo menos meia hora. Por isso tivemos de voltar a correr. 
   Assim que vimos a porta do clube paramos em frente a ela. 
   Menos de dois minutos depois o pai dele chegou. Sorrimos um para o outro. Éramos cumplices na fuga e nenhum dos dois abriria boca para falar sobre isso. 
   Entrei de novo no banco traseiro e o silêncio voltou a reinar.
   Logo eu estava em casa. Antes de eu sair do carro, Pedro me entregou um papel. Peguei-o e corri para dentro.
   Escancarei a porta da sala. Meu pai estava no sofá lendo o jornal - o interessante é que este estava de cabeça para baixo -, meu irmão jogando videogame e minha mãe bordando suas toalhas - que sempre têm animais que acabam sem pernas por falta de espaço. 
- Ah, oi filha - falou minha mãe - se divertiu? 
- Foi legal - pouco - muito na verdade - ainda pouco. 
- Hmm... - depois disso senti que o assunto tinha acabado. 
   Corri para o meu quarto. Tirei a roupa e entrei debaixo do chuveiro. Era como se aquele dia não tivesse acontecido. Perfeito demais. 
   Lavei meu cabelo. Devia estar cheio de cloro, e estava, mas não tanto quanto todos nessea casa imaginavam. 
   Assim que saí coloquei meu pijama e entrei no computador. Aproveitei o meu momento sozinha - antes que minha mãe ou meu pai arrancassem a porta fora - para abrir o papel que Pedro me dera. 
   Poucas palavras estavam escritas:  
        87256596 
        Beijos... Me liga. 
   Gravei o telefone no meu celular e deixei para ligar mais tarde. Tinha acabado de vê-lo.
   Abri o MSN e o orkut. 
   Tinha um novo scrap, era do Gabriel: 
    "Oi garota do amendoim" 
   Corei automaticamente e tratei logo de apagar o scrap, garota do amendoim não era meu apelido preferido. 
- Filha?!
- Diz... 
- Jantar! 
   Quase na mesma hora meu estômago roncou. Saí do computador e fui para sala. O cheiro de macarrão era irresistível.
   Enquanto enrolava o macarrão no garfo, pensei: "Com certeza ilha do paraíso..." 
      

  

30 de janeiro de 2010

Suspense...

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Como pude não perceber o quanto ele era lindo? Deve ser porque estava escondido dentro daquela cara de quem comeu e não gostou. Mas ali, sorrindo e acenando, ele era um figura perfeita de deus grego. Seus cabelos negros contrastando com sua pele branca. Seu meio-sorriso perfeito e seus olhos verdes sinceros eram insuportavelmente maravilhosos.
   Deixei minha mente vagar enquanto respondia ao recado da minha amiga. Pensei em Pedro e Gabriel, lado a lado. Por um lado Pedro era lindo: cabelo loiro e liso, perfeito para sua pele também branca, seus olhos azuis de anjo, mas por outro Gabriel também era, seu cabelo negro e cacheado... Como o lado envenenado da maça, o mistério e o perigo... Nem adiantava mais pensar, eu já estava ficando louca enquanto pensava em meninos e maçãs ao mesmo tempo. 
  Terminei de responder aos scraps e fui trocar de roupa. Ela já estava em cima da cama. Vesti tudo e fui para a sala, esperar o tempo passar.
  O tempo se arrastava enquanto esperava impacientemente. 
  Assim que o relógio da igreja anunciou as duas, desci correndo as escadas e parei no portão, quase quebrando o nariz na grade.
  O carro chegou um pouco depois de mim. Destranquei e tranquei o portão quase em um só movimento... Pulei no banco traseiro e fiquei em silêncio. Se a conversa não começava, não seria eu que a começaria.
  O silêncio reinou até que o pai de Pedro nos deixasse na porta do clube. Assim que saímos do carro e ficamos sozinhos...
- Finalmente - murmurou ele, assim que o pai virou a esquina
- O que foi?
- Eu estou te sequestrando! - falou, parecia sério. Mas não podia ser...
- Tá zoando?
- Tô - admitiu - mas a gente não vai ficar aqui mesmo não. O clube era só uma desculpa. Agora vem... - falou, virando na direção contrária.
   Ele me levou até a estação de metrô. Ele me pediu para esperar perto de uma pilastra e entrou em uma fila que eu não sabia pra que era. Dez mintos depois, voltou e pediu para que o seguisse. Passamos pela roleta. Ele tinha pagado minha passagem, que cavalheiro. Descemos a escada. Estávamos na estação Central e só Deus sabe para onde iámos. Deus e Pedro
  Assim que o trem chegou entramos nele e pela primeira vez ele falou alguma coisa...
- Vamos a um lugar que fica na estação floramar...
- E que lugar seria esse?
- Logo vai ver. - prometeu.
   As estações passavam voando enquanto a ansiedade da dúvida me consumia. Assim que descemos dali, corremos pelas escada e saimos em uma ruazinha bem estreita. Viramos a esquina e subimos por uma rua cheia de curvas até que saímos em outra ladeira, mais "em pé", porém menor. Subimos e viramos à direita, de repente estávamos em uma pracinha calma e tranquila em frente a uma igreja. Nos sentamos em um banco e ele disse:
- Vamos descansar um pouco...
- Ainda não chegamos? - o desepero em minha voz o fez rir. 
- A gente nem andou tanto assim!  
- Eu estou de chinelos, não de tênis! Podia ter me avisado que a gente ia fugir para outro bairro!
- Você não tem cara de quem segura a lingua dentro da boca!
- Tá me chamando de linguaruda?
- É - fechei a cara - Mas é uma linguaruda linda... - completou. Senti seus dedos no meu cabelo. Cheguei mais perto. Ele me abraçou. Ficamos assim, parados - Eu quero te beijar - sussurrou de repente.
- Eu também... - respondi, sem nem mesmo pensar.
    Seus lábios estavam nos meus pouco tempo depois.
    E não foi como eu pensava que seria... Foi melhor ainda.
    E acabou de repente.
- Temos que ir, senão não estaremos de volta quando meu pai for nos buscar no "clube"...
- Clube... sei, sei...
    Ele me deu a mão e saimos correndo pelas ruas, virando esquerdas e direitas em vários lugares. Por fim estávamos em um parque simples e quieto. Entramos por uma porta depois de comprarmos açaí e coxinhas na padaria que tinha em frente.
   Começamos a andar por um caminho de terra e pedras. Um lago cheio de patos tomava a nossa vista. Nos sentamos na beira dele e começamos a devorar nosso lanche.
- Sabia...
- Diz...
- Que você tem um sorriso lindo?
- Sabia - brinquei. Ele sorriu.
- Hmm, acho que tem um bicho aqui! - me alertou.
- Onde? - perguntei, alarmada.
- Bem aqui - falou, me beijando de leve nos lábios.
- Seu sem graça! 
- Que foi, vai dizer que não gostou? - perguntou.
- Não... Mentir eu também não posso!
    De repente o celular dele tocou. 
    Ficamos parados sem saber o que fazer. E se tivessem descoberto que não estávamos no clube?
   Pedro abriu o celular e viu qual era o número. Logo sua cor voltou ao branco rosado e não o branco "estou morto"... 
- Oi zé! - falou, animado. - É, ela tá aqui. Onde vocês estão? - ele esperou a resposta - Já tamo indo praí! Valeu cara, quebrô maior galhão! 
   Assim que ele desligou um sorriso malicioso surgiu em seus lábios. Ainda não tinhamos chegado ao lugar certo...


   

29 de janeiro de 2010

Telefonema

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- Tá tudo bem? - perguntou.
- Tá, é só que... Um minuto. - fui para o meu quarto. - Pode falar agora.
- Na verdade não é nada de muito importante. É só que eu queria te ver mais uma vez... - confessou. Um sorriso surgiu no meu rosto sem nem mesmo que eu quisesse isso. Eu queria vê-lo também? Eu já sabia a resposta... Mas antes ainda tinha mais perguntas...
- Como sabia meu telefone?
- O Jonathan tem o telefone do Paulo, que é seu irmão e provavelmente mora com você, então...
- Já entendi... - falei, rindo. 
- E então, a gente pode se encontrar? 
- Hmm... - hesitei - Tudo bem... Mas onde? 
- Bom, amanhã eu vou ao clube, onde eu jogo pelada com meus amigos. - hesitou - Eu estava pensando se você não queria ir comigo...?
- Por mim tudo bem, só vou perguntar a minha mãe e eu te ligo de volta.
- Quer meu telefone?
- Eu tenho bina... - ele riu.
- A tá, saquei. - respondeu - Então tá. Tchau Ju.
- Tchau Pedro.
- Aí? É Pê. - afirmou.
- Então... até mais Pê...
    Desliguei o telefone e voltei para a sala. O cheiro de calda era irresistível. Corri para a cozinha. Meu pai me conhecia melhor do que achei. Logo me entregou uma colher e a leiteira com o resto da calda. Assim que detonei o que ainda sobrava ele abordou o assunto.
- Quem era no telefone?
- Ah, você percebeu. 
- Sim. E então, quem era?
- Um amigo. Ele queria saber se posso ir ao clube com ele e os amigos dele... Posso?
- Hmm... - pensou - por mim tudo bem. Já pela sua mãe...
- Tá, pode deixar que eu pergunto... - concordei de cara fechada.
    Voltei para a sala e me sentei ao lado de minha mãe. Ela lia um livro que nunca tinha visto...
- Mãe? - pedi sua atenção.
- Sim querida? 
- Posso ir ao clube com um amigo amanhã? - tentei ser o menos objetiva e óbvia possível. Assim talvez ela dissesse sim.
- Que amigo?
- É o irmão mais velho do Jonathan.
- Hmm... Pode ir se prometer voltar antes do jantar.
- Eu prometo... E eu nunca descumpro uma promessa...
- Bom... Da ultima vez que você falou isso, você foi sincera, então sou obrigada a acreditar...
- Obrigada mãe! - disse, abraçando-a. 
     Peguei o telefone de novo e liguei para o telefone que eu tinha anotado como sendo dele. Uma voz grossa rosnou do outro lado da linha:
- Alô?
- Oi, é, eu poderia falar com o Pedro?
- Ah, sim, claro. PEDRO! - de repente do outro lado da linha não tinha mais ninguém. Esperei pacientemente até que ele atendesse. Não demorou mais do que um minuto.
- E então?
- Ela deixou! - anunciei, sorrindo.
- Ótimo! Eu passo aí às duas da tarde pra te pegar. Até lá.
- Até. - e ele desligou. Coloquei o telefone no lugar e me sentei do lado do meu irmão. - Posso jogar uma?
- Tá, pega aqui - falou ele, me passando o outro joystick. Guitar Hero era o jogo mais divertido dele, principalmeente por causa das músicas perfeitas que tinha. - Qual vai querer?
- Mississippi Queen, por favor - pedi. Ele selecionou a música. Eu conhecia a sequencia de trás para frente. 
- Você só vai nessa porque ganha! - acusou ele.
- Exatamente! - concordei.
    O cheiro de bolo era cada vez mais forte. 
    
Na manhã seguinte acordei bem mais cedo do que de costume. A ansiedade me tirou da cama às nove em ponto. Aproveitei para arrumar as coisas, separar a roupa, procurar meu chinelo. Por fim acabei no computador, twittando um pouco, precisava corrigir as besteiras que tinha escrito sobre o meu pai:
  "Ele tá tentando..."
  "O presente foi o melhor, não tenho do que reclamar"
  "Não é o melhor pai do mundo, mas com certeza está lutando para entrar na lista"
- Filha?
- Hã?
- Café da manhã.
   Pulei da cadeira e corri para a sala. A fome já estava me consumindo. Pão com manteiga e café com leite, clássico e gostoso...
   Comi tudo e voltei ao meu quarto. Ainda tinha muito tempo. Decidi abrir ou meu Orkut, que já não abria há séculos.
   Havia uma solicitação de novo amigo:
   Seu nome era Gabriel. Não fazia ideia de quem fosse, mas aceitei.
   Procurei na minha lista de amigos e cliquei em seu nome. Assim que abri seu álbum de fotos não pude acreditar. Ele não se esquecera...

28 de janeiro de 2010

Novidades

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Quando passamos pela porta e eu vi quem estava lá, pensei que estava em outra dimensão. Talvez nem isso, porque nem assim ele estaria comigo. Quer dizer, vir do Japão para o Brasil não era a coisa mais fácil de se fazer. Principalmente quando você tem uma esposa japonesa e um filho japo-brasileiro...
- Oi queridos - disse, sorrindo. Tanto eu quanto meu irmão continuávamos parados do mesmo lugar. Irreal demais - Qual é, não ficaram felizes? - perguntou, fingindo-se de ofendido.
- Claro que ficamos pai! - disse meu irmão se aproximando para lhe dar um abraço.
    Eu já não estava tão animada assim, eu sabia o que acontecia quando ele e mamãe ficavam no mesmo comodo. Da última vez em que ele foi embora ele levou consigo nosso irmão mais velho, Higor. Ele também se casou e agora tem um filho com uma moça chamada Yuong. Às vezes Higor nos liga, mas o assunto família é proibido, o nome da mamãe raramente está incluido nas conversas. Também, do jeito que os dois brigavam. Talvez por isso ele e papai sejam tão parecidos, ambos não suportam dividir um comodo com minha mãe.
- Eu trouxe presentes! - o rosto de Paulo se iluminou. - estão no quarto de vocês... - completou.
- Tchau gente - disse meu irmão, correndo para o quarto. Pude ouvir o barulho de papel rasgando.
- E você querida? Não vai abrir também?
- Depois - por um segundo sua expressão desmoronou. Depois voltou ao normal e ele foi para o quarto do meu irmão.
   Minha mãe me encarou, esperando uma explicação para minha frieza. Limitei-me a dar as costas e ir para o quarto.
   Arranquei aquela roupa e vesti meu pijama. Sentei na mesa do computador e entrei na internet. De repente o twitter pareceu mais interessante do que sempre foi. Entrei e comecei a postar um atrás do outro:
   "Pai em casa, perigo!"
   "Presentinhos que nunca me compram!"
   "A droga da menor idade!"
   "Japão de repente parece tão perto!"
   "Eu sabia que o jogo não seria a pior coisa!"
   Assim que mandei postar o último minha mãe bateu na porta do quarto, quase quebrando-a.
- Que é? - rosnei.
- O que foi aquilo? Está louca? Ele é seu pai!
- Agora vai defender? - desafiei. - Qualé mãe? Você sempre foi a primeira a reclamar dele e agora está brava porque eu sou mal educada! Faz favor!
- Não importa o que eu acho! Ele trata bem vocês e é isso que importa!
- Tratar bem, grande coisa! - gritei. - Se ele amasse a gente mesmo ficava aqui!
- Já disse, a separação foi por outros fatores que nada tiveram a ver com você ou com o seu irmão!
- Sei, sei. Se eu pegar aquela caixa, abrir e fingir amar o presente que ele me deu você para de brigar comigo?
- Já é um passo. - murmurou.
- Ótimo! Eu vou fazer isso, agora por favor, me deixa sozinha - pedi.
- Tudo bem - se deu por vencida - mas espero que faça o que prometeu.
- Eu não descumpro uma promessa mãe. - garanti. Ela sorriu e me abraçou. Depois saiu e voltou para sala, onde meu irmão brincava com o novo CD de jogo que meu pai dera para ele. Eu podia ouvir as freiadas do quarto. 
   Tranquei a porta novamente e peguei a caixa que estava em cima da cama. Tirei o laço com cuidado e abri o saco. Dali de dentro sairam dois prendedores de cabelo de bolinhas, do tipo animê. Junto estava um bilhete: "Sei que não sou o melhor pai do mundo, mas estou tentando"
   Remorso podia matar? Parecia que sim. Uma dor enorme rasgou meu coração em dois. Eu sabia que ele estava tentando, mas era difícil para mim também. Pulei da cama e fui direto para minha penteadeira. Penteei meu cabelo e coloquei as presilhas. Já era a segunda burrada do dia, mas essa eu ainda podia consertar. Prendi da melhor forma que pude e voltei para a sala.
  Minha mãe, assim que me viu, sorriu satisfeita. Meu irmão nem me olhou, vidrado no videogame. Meu pai ficou me olhando, sem entender bem o que tinha mudado.
  Andei até ele e o abracei. Afinal, pra todos os efeitos, ele era meu pai. E não importa que minha mãe case de novo, namore, meu pai sempre vai ser ele. Meu pai japo-brasileiro...
- Gostou das presilhas? - perguntou.
- Eu amei pai - disse. Não estava mentindo, eram mesmo lindas.
- Que bom - respondeu. Deve ser bom para um pai pelo menos uma vez acertar no presente da sua filha. - Então, Helô, estava pensando, e se eu preparar aquele bolo?
- Acho que eles vão adorar. - concordou minha mãe. Eu nem sabia que meu pai cozinhava.
   Ele foi para a cozinha. Deitei no sofá e encarei o teto.
   De repente o telefone tocou. Eram dez horas da noite, quem poderia ser?
   Corri para a mesa e arranquei o telefone do gancho.
- Alô?
- Oi Ju. - uma voz familiar sussurrou do outro lado da linha. Eu mal podia acreditar...

Irmãos...

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Quando eu entrei pela primeira vez com a minha mãe em um carro e ela deu a partida, eu soube que um dia ela mataria uma de nós duas, ou ambas. 
  Ela já estava à 110 km/h em uma via em que só era permitido 95 km/h. Várias cenas horríveis passavam na minha cabeça enquanto ela passava voando pelos outros carros. É impressionante como os guardas de trânsito somem quando precisamos deles...
- Mãe! Diminua essa velocidade! Pelo amor de Deus! 
- Mas estamos atrasadas! 
- Antes atrasadas do que mortas! - gritei. Ela suspirou e deixou cair para noventa. Respirei fundo tentando considerar a diferença. - pro-prometa que nunca mais va-vai andar como louca! - gaguejei enquanto recuperava por total os sentidos e apagava de mim o desespero de segundos atrás... 
- Tá - murmurou. Parecia uma criança que não ganhou o que queria de Natal. 
    Respirei de alívio quando entramos no estacionamento do colégio. Estava lotado. Comecei a rezar para ter lugares nas arquibancadas. Já não estava a fim de ir, ficar em pé só ia piorar as coisas. 
- Anda logo! - murmurou minha mãe enquanto eu lutava para me libertar do cinto de segurança.
- Calma! - ela me ignorou e foi para dentro da quadra. Por fim o cinto me soltou e chicoteou o carro. Pulei para fora e bati a porta.
  Quando me enfiei no meio daquela multidão percebi que não a acharia mesmo. Acabei me sentando no unico lugar que eu achei: Entre um velho carrancudo e um garoto calado.
  Naquele meio eu mal conseguia respirar. A maioria ali estava suada, o que fazia com que o ar tivesse um cheiro horrível de suor misturado à chocolate e pipoca. De repente a dificuldade de respiração parecia uma boa.
  Me enfiei no meio dos dois e rezei para que o jogo começasse e acabasse logo.
- Boa tarde pessoal! - gritou o professor de educação física. 
- Boa tarde! - respondeu o coro.
- O jogo começará dentro de cinco minutos. Os vendedores de amendoim e refrigerante começarão a passar daqui a pouco. Por favor, nada de gritaria ou choro, ou tomates. Tenham calma senhoras e senhores - pigarreou - E bom jogo!  
  Nesse exato momento meu estômago roncou. Afinal, o strogonoff não adiantou de nada? Mas também, com a velocidade que eu comi, era de se esperar. Remexi dentro da bolsa em busca de uma nota de cinco. E, como já era de se esperar, minha carteira estava vazia. Achar minha mãe ia ser complicado. E não comer também ia.
- Vai querer alguma coisa? - perguntou o vendedor, irritado. Não podia culpá-lo. Aquele trabalho devia ser um inferno!
- Não, eu não trouxe dinheiro.... - murmurei, só eu sei como aquelas palavras doiam. Meu estomâgo estava realmente magoado.
- Hmm... Acho que posso te vender fiado. Depois você me paga - Falou. Minha cara de esfomeada era tão evidente?
- Obrigada - sussurrei, pegando o pacote que ele me entregava...
- De nada...
- Eu vou te pagar - murmurei - é uma promessa.
- Não chega a tanto - respondeu. Depois disso continuou a andar.
   Engoli o pacote inteiro em pouco tempo. Não ia acabar com a minha fome, mas podia acalmar meu estômago por mais algum tempo. Suspirei e me encostei na grade. O cheiro desagradável não tinha melhorado, mas com comida no estômago era mais fácil de aturar...
   Respirar também estava mais fácil. Inspirei e expirei com uma ansiedade maior do que a necessária.
   Tomei o máximo de espaço que pude e esperei. O jogo não deveria demorar a começar.
- Oi. - murmurou o garoto que estava ao meu lado.
- Oi - respondi.
- Está tudo bem? - perguntou. Percebi que o senhor do meu outro lado dormia profundamente. - Ah, o dorminhoco? É o meu avô. Toda vez que ele vem em algum jogo acontece isso. - explicou.
- Ah - murmurei. - Com relação à última pergunta: sim, eu estou bem. - sorri. 
- É que parecia tão, am, sufocada. 
- Mais ou menos - ele riu com a careta que eu fiz. 
- Meu nome é Pedro
- O meu é Juliana, mas pode me chamar de Ju. - olhei para o jogo que começava - Você também faz aulas? - chutei.
- Quase. Sou irmão de um jogador. Eu jogo uma pelada, mas jogar em campo? Não. - sorriu.
- Acho que estamos no mesmo barco - ficou confuso - Eu sou irmã do Paulo.
- Sério? Sou irmão do Jonathan. Seu irmão já foi lá em casa treinar.
- Eu adoro o Jon, ele é uma gracinha.
- É, todo mundo diz isso - murmurou. Estávamos mesmo no mesmo barco.
- Irmãos - falei.
- É né... - concordou.
    A conversa com ele tomou o jogo inteiro.
    De repente o tempo passou rápido demais.
- Tchau - falei, quando minha mãe veio me arrastar para parabenizar meu irmão.
- Tchau - respondeu, acenando. Como minha mãe andava rápido.
   
Naquela noite fomos comemorar no lugar preferido do meu irmão: Mc Donald's! É claro que sempre que eu ia lá minha dieta ia por água abaixo, mas... Fazer o que?
  Enquanto meu irmão engolia o x-burguer e eu mordiscava minha ultima batata, minha mãe falou:
- Temos que ir, já estamos atrasados, inclusive.
- Para...?
- Vocês logo verão... É uma surpresa...

Você quer mesmo saber? POIS EU NÃO!

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- Mãe!
- Qual é o problema? É só um jogo!
- Eu não vou!
- Por quê?
- Eu não quero voltar para casa com gritos de garotos suados e preguentos na cabeça!
- Mas filha... - e então ela apela para o sentimentalismo - Você não tem mesmo nem um tipo de consideração pelo seu irmão? - suspiro forçado - Onde foi que eu errei?...
- Argh! Se eu for você para de lamentar o quanto eu sou mimada?
- Provavelmente...
- Tá bom, eu vou... - Odeio quando as mães tentam convencer a gente de alguma coisa. E odeio ainda mais quando elas conseguem.
   Assim que ela saiu, com um sorriso escancarado, e foi para a cozinha eu me joguei na cama.
   Minha linha de pensamento começou a funcionar. E então a ficha realmente caiu: Eu ia a um jogo... A última coisa que queria fazer em uma trilhão de anos! Agora eu faria. 
   O ódio pós raciocínio estava me consumindo. Por que eu nunca luto até o fim?
   É como se existisse um dispositivo dentro de mim que me obrigasse a dizer sim antes de pensar em dizer o não! De repente a história de que fomos feitos em fábricas não é tão mentira assim. E o fabricante era muito mau!
   Desisti do ódio e passei para o negativismo. Ou seja, cheguei à conclusão de que estava tudo péssimo! Eu iria a um jogo! 
   Levantei e fui para o banheiro. Tirei a roupa e entrei debaixo do chuveiro.
   Fiquei enrolando no banho até que ouvi minha mãe patinhando no corredor e arrancando a maçaneta. Vesti o roupão antes que ela fizesse comigo o que fez com a ultima violeta - que hoje em dia está quebrada em mil pedacinhos.
   Quando saí pela porta vi o fenômeno da cor da minha mãe passar por vermelho, roxo, azul e finalmente voltar ao branco - cor natural dela.
   Ela me encarou incrédula e irritada e deu de ombros. Deu as costas e voltou à cozinha. 
   O cheiro de Strogonoff era atraente. Corri para trocar de roupa. Peguei meu short jeans velho e minha camiseta de algodão - que minha mãe odeia. Calcei minhas sandálias rasteiras e corri para a sala. Parei a três centímetros de fazer minha mãe derrubar tudo. 
   Fiquei observando suas caretas enquanto ela engolia os milhares de palavrões que lhe subiam à boca. Por fim apenas murmurou: 
- Vai querer Coca? - assenti. Evitar palavras era fazer surgir uma grande chance de não ficar de castigo. 
   Ela desapareceu na cozinha. 
   Peguei meu prato e me joguei no sofá. Liguei a televisão e pus na Globo. Sessão da Tarde é sempre uma boa pedida quando se quer esquecer da burrada que se fez.
- Come logo - disse minha mãe - porque vamos sair às cinco e meia. - Com que desprezo ela trata a refeição quando se trata do jogo do seu campeãozinho! 
- Tá. - falei. Ela revirou os olhos quando viu que eu estava vendo filme. 
- Você nunca aprende o lixo que a televisão é... 
- E você nunca fala isso quando é meu irmão que está vendo! - rebati. Ela engoliu mais palavrões. Suas caretas foram mais esquisitas, ou seja, os palavrões que engoliu foram maiores e mais obscenos do que os últimos... 
- Ande logo - disse e então se levantou e sumiu no quarto. Mesmo estando na sala que ficava a dois comodos de distancia dela pude ouvir seus palavrões gritados. Iam de leves a proibidos para menores de dezoito anos.
   Ri baixo. Ouvir aqueles palavrões saindo da boca da minha mãe era a maior contradição desse mundo. Ela que é sempre tão certinha e requintada gritando aquilo era desconcertante, até.
  Terminei de comer e levei o prato para a cozinha. Lavei rápido e voltei para o quarto. Se minha mãe pensava que eu ia trocar de roupa estava muito enganada. Apenas prendi meu cabelo em um rabo-de-cavalo muito mal feito e coloquei um brinco qualquer. 
   Quando voltei à sala ela já estava me esperando, impaciente.
   Peguei a chave na prateleira e destranquei a porta.
   Ela rapidamente desarmou o alarme do carro e entrou. Deu a partida. Tranquei a porta e entrei do lado do carona. Ela ligou o rádio.
- Que música quer ouvir? - perguntou. Dei de ombros. Ela colocou em uma rádio qualquer e saiu pelo portão.
   Percebi a que estava condenada quando ela virou a esquina e sorriu. E então eu tinha certeza... O jogo não seria a pior coisa...