28 de janeiro de 2010

Irmãos...

Quando eu entrei pela primeira vez com a minha mãe em um carro e ela deu a partida, eu soube que um dia ela mataria uma de nós duas, ou ambas. 
  Ela já estava à 110 km/h em uma via em que só era permitido 95 km/h. Várias cenas horríveis passavam na minha cabeça enquanto ela passava voando pelos outros carros. É impressionante como os guardas de trânsito somem quando precisamos deles...
- Mãe! Diminua essa velocidade! Pelo amor de Deus! 
- Mas estamos atrasadas! 
- Antes atrasadas do que mortas! - gritei. Ela suspirou e deixou cair para noventa. Respirei fundo tentando considerar a diferença. - pro-prometa que nunca mais va-vai andar como louca! - gaguejei enquanto recuperava por total os sentidos e apagava de mim o desespero de segundos atrás... 
- Tá - murmurou. Parecia uma criança que não ganhou o que queria de Natal. 
    Respirei de alívio quando entramos no estacionamento do colégio. Estava lotado. Comecei a rezar para ter lugares nas arquibancadas. Já não estava a fim de ir, ficar em pé só ia piorar as coisas. 
- Anda logo! - murmurou minha mãe enquanto eu lutava para me libertar do cinto de segurança.
- Calma! - ela me ignorou e foi para dentro da quadra. Por fim o cinto me soltou e chicoteou o carro. Pulei para fora e bati a porta.
  Quando me enfiei no meio daquela multidão percebi que não a acharia mesmo. Acabei me sentando no unico lugar que eu achei: Entre um velho carrancudo e um garoto calado.
  Naquele meio eu mal conseguia respirar. A maioria ali estava suada, o que fazia com que o ar tivesse um cheiro horrível de suor misturado à chocolate e pipoca. De repente a dificuldade de respiração parecia uma boa.
  Me enfiei no meio dos dois e rezei para que o jogo começasse e acabasse logo.
- Boa tarde pessoal! - gritou o professor de educação física. 
- Boa tarde! - respondeu o coro.
- O jogo começará dentro de cinco minutos. Os vendedores de amendoim e refrigerante começarão a passar daqui a pouco. Por favor, nada de gritaria ou choro, ou tomates. Tenham calma senhoras e senhores - pigarreou - E bom jogo!  
  Nesse exato momento meu estômago roncou. Afinal, o strogonoff não adiantou de nada? Mas também, com a velocidade que eu comi, era de se esperar. Remexi dentro da bolsa em busca de uma nota de cinco. E, como já era de se esperar, minha carteira estava vazia. Achar minha mãe ia ser complicado. E não comer também ia.
- Vai querer alguma coisa? - perguntou o vendedor, irritado. Não podia culpá-lo. Aquele trabalho devia ser um inferno!
- Não, eu não trouxe dinheiro.... - murmurei, só eu sei como aquelas palavras doiam. Meu estomâgo estava realmente magoado.
- Hmm... Acho que posso te vender fiado. Depois você me paga - Falou. Minha cara de esfomeada era tão evidente?
- Obrigada - sussurrei, pegando o pacote que ele me entregava...
- De nada...
- Eu vou te pagar - murmurei - é uma promessa.
- Não chega a tanto - respondeu. Depois disso continuou a andar.
   Engoli o pacote inteiro em pouco tempo. Não ia acabar com a minha fome, mas podia acalmar meu estômago por mais algum tempo. Suspirei e me encostei na grade. O cheiro desagradável não tinha melhorado, mas com comida no estômago era mais fácil de aturar...
   Respirar também estava mais fácil. Inspirei e expirei com uma ansiedade maior do que a necessária.
   Tomei o máximo de espaço que pude e esperei. O jogo não deveria demorar a começar.
- Oi. - murmurou o garoto que estava ao meu lado.
- Oi - respondi.
- Está tudo bem? - perguntou. Percebi que o senhor do meu outro lado dormia profundamente. - Ah, o dorminhoco? É o meu avô. Toda vez que ele vem em algum jogo acontece isso. - explicou.
- Ah - murmurei. - Com relação à última pergunta: sim, eu estou bem. - sorri. 
- É que parecia tão, am, sufocada. 
- Mais ou menos - ele riu com a careta que eu fiz. 
- Meu nome é Pedro
- O meu é Juliana, mas pode me chamar de Ju. - olhei para o jogo que começava - Você também faz aulas? - chutei.
- Quase. Sou irmão de um jogador. Eu jogo uma pelada, mas jogar em campo? Não. - sorriu.
- Acho que estamos no mesmo barco - ficou confuso - Eu sou irmã do Paulo.
- Sério? Sou irmão do Jonathan. Seu irmão já foi lá em casa treinar.
- Eu adoro o Jon, ele é uma gracinha.
- É, todo mundo diz isso - murmurou. Estávamos mesmo no mesmo barco.
- Irmãos - falei.
- É né... - concordou.
    A conversa com ele tomou o jogo inteiro.
    De repente o tempo passou rápido demais.
- Tchau - falei, quando minha mãe veio me arrastar para parabenizar meu irmão.
- Tchau - respondeu, acenando. Como minha mãe andava rápido.
   
Naquela noite fomos comemorar no lugar preferido do meu irmão: Mc Donald's! É claro que sempre que eu ia lá minha dieta ia por água abaixo, mas... Fazer o que?
  Enquanto meu irmão engolia o x-burguer e eu mordiscava minha ultima batata, minha mãe falou:
- Temos que ir, já estamos atrasados, inclusive.
- Para...?
- Vocês logo verão... É uma surpresa...

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