28 de janeiro de 2010

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Quando passamos pela porta e eu vi quem estava lá, pensei que estava em outra dimensão. Talvez nem isso, porque nem assim ele estaria comigo. Quer dizer, vir do Japão para o Brasil não era a coisa mais fácil de se fazer. Principalmente quando você tem uma esposa japonesa e um filho japo-brasileiro...
- Oi queridos - disse, sorrindo. Tanto eu quanto meu irmão continuávamos parados do mesmo lugar. Irreal demais - Qual é, não ficaram felizes? - perguntou, fingindo-se de ofendido.
- Claro que ficamos pai! - disse meu irmão se aproximando para lhe dar um abraço.
    Eu já não estava tão animada assim, eu sabia o que acontecia quando ele e mamãe ficavam no mesmo comodo. Da última vez em que ele foi embora ele levou consigo nosso irmão mais velho, Higor. Ele também se casou e agora tem um filho com uma moça chamada Yuong. Às vezes Higor nos liga, mas o assunto família é proibido, o nome da mamãe raramente está incluido nas conversas. Também, do jeito que os dois brigavam. Talvez por isso ele e papai sejam tão parecidos, ambos não suportam dividir um comodo com minha mãe.
- Eu trouxe presentes! - o rosto de Paulo se iluminou. - estão no quarto de vocês... - completou.
- Tchau gente - disse meu irmão, correndo para o quarto. Pude ouvir o barulho de papel rasgando.
- E você querida? Não vai abrir também?
- Depois - por um segundo sua expressão desmoronou. Depois voltou ao normal e ele foi para o quarto do meu irmão.
   Minha mãe me encarou, esperando uma explicação para minha frieza. Limitei-me a dar as costas e ir para o quarto.
   Arranquei aquela roupa e vesti meu pijama. Sentei na mesa do computador e entrei na internet. De repente o twitter pareceu mais interessante do que sempre foi. Entrei e comecei a postar um atrás do outro:
   "Pai em casa, perigo!"
   "Presentinhos que nunca me compram!"
   "A droga da menor idade!"
   "Japão de repente parece tão perto!"
   "Eu sabia que o jogo não seria a pior coisa!"
   Assim que mandei postar o último minha mãe bateu na porta do quarto, quase quebrando-a.
- Que é? - rosnei.
- O que foi aquilo? Está louca? Ele é seu pai!
- Agora vai defender? - desafiei. - Qualé mãe? Você sempre foi a primeira a reclamar dele e agora está brava porque eu sou mal educada! Faz favor!
- Não importa o que eu acho! Ele trata bem vocês e é isso que importa!
- Tratar bem, grande coisa! - gritei. - Se ele amasse a gente mesmo ficava aqui!
- Já disse, a separação foi por outros fatores que nada tiveram a ver com você ou com o seu irmão!
- Sei, sei. Se eu pegar aquela caixa, abrir e fingir amar o presente que ele me deu você para de brigar comigo?
- Já é um passo. - murmurou.
- Ótimo! Eu vou fazer isso, agora por favor, me deixa sozinha - pedi.
- Tudo bem - se deu por vencida - mas espero que faça o que prometeu.
- Eu não descumpro uma promessa mãe. - garanti. Ela sorriu e me abraçou. Depois saiu e voltou para sala, onde meu irmão brincava com o novo CD de jogo que meu pai dera para ele. Eu podia ouvir as freiadas do quarto. 
   Tranquei a porta novamente e peguei a caixa que estava em cima da cama. Tirei o laço com cuidado e abri o saco. Dali de dentro sairam dois prendedores de cabelo de bolinhas, do tipo animê. Junto estava um bilhete: "Sei que não sou o melhor pai do mundo, mas estou tentando"
   Remorso podia matar? Parecia que sim. Uma dor enorme rasgou meu coração em dois. Eu sabia que ele estava tentando, mas era difícil para mim também. Pulei da cama e fui direto para minha penteadeira. Penteei meu cabelo e coloquei as presilhas. Já era a segunda burrada do dia, mas essa eu ainda podia consertar. Prendi da melhor forma que pude e voltei para a sala.
  Minha mãe, assim que me viu, sorriu satisfeita. Meu irmão nem me olhou, vidrado no videogame. Meu pai ficou me olhando, sem entender bem o que tinha mudado.
  Andei até ele e o abracei. Afinal, pra todos os efeitos, ele era meu pai. E não importa que minha mãe case de novo, namore, meu pai sempre vai ser ele. Meu pai japo-brasileiro...
- Gostou das presilhas? - perguntou.
- Eu amei pai - disse. Não estava mentindo, eram mesmo lindas.
- Que bom - respondeu. Deve ser bom para um pai pelo menos uma vez acertar no presente da sua filha. - Então, Helô, estava pensando, e se eu preparar aquele bolo?
- Acho que eles vão adorar. - concordou minha mãe. Eu nem sabia que meu pai cozinhava.
   Ele foi para a cozinha. Deitei no sofá e encarei o teto.
   De repente o telefone tocou. Eram dez horas da noite, quem poderia ser?
   Corri para a mesa e arranquei o telefone do gancho.
- Alô?
- Oi Ju. - uma voz familiar sussurrou do outro lado da linha. Eu mal podia acreditar...

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