31 de janeiro de 2010

Paraíso

- Agora a festa vai começar - gritou, animado.
- Aonde vamos? - perguntei, curiosa.
- Já ouviu falar nas sete maravilhas do mundo?
- Ouvi falar, ouvi, mas nunca conheci uma. - murmurei.
- Hoje você vai conhecer a oitava...
- E qual é?
- A que vai ver agora! - falou, como se fosse óbvio. - Agora vamos, o pessoal não vai esperar para sempre!
- Tudo bem - concordei, hesitante. Ele me puxou pela mão e saímos correndo. Depois de uma trilha cercada de muitas árvores saímos em uma piscina gigante. Estava vazia. Parecia ser usada como palco. Lá dentro estavam vários meninos e algumas meninas também. Todos gritavam uns com os outros e riam. - É aqui? - perguntei.
- É. - falou, rindo - e ali também. - apontou para uma quadra de areia. Lá varias pessoas jogavam vôlei e peteca.
- É tão naturalmente perfeito... - sussurrei para mim mesma.
- É mesmo. Eu e meus colegas chamamos isso aqui de "ilha do paraíso"... Nosso clube particular. Só gente legal vem aqui! - completou
- Hmm... Que bom, agora sei que sou legal! - brinquei. Ele riu.
- Pessoal! - gritou. Alguns meninos vieram até a gente.
- Você tem razão - falou um - Ela é mesmo linda. - corei.
- Ele tem sorte - murmurou outro. Com essa eu tive que rir... 
- Calem a boca - falou Pedro - Fala pro Japa ligar, avisa que já tá todo mundo aqui. - ele se virou pra mim. 
- Vai colocar o biquini. Temos uma festa aqui! - falou, claramente animado. 
     Corri para dentro do banheiro e tirei o vestido e o chinelo. Coloquei tudo dentro da bolsa e voltei. Menos de cinco minutos. 
- É, você tem muita sorte - repetiu o colega.  
- Que foi? - perguntei a Pedro 
- O cara aí acha que toda mulher demora um dia pra trocar de roupa só porque a ex dele demorava... - disse, despreocupado - Mó tapado! - provocou. 
- Ah é? - perguntou 
    O "cara aí" saiu correndo atrás dele. Pedro desceu correndo as escadas, com um tubo na mão. Eu não fazia ideia de que tubo era aquele, isso até ele apertar e espirrar um monte de espuma na cara de outro garoto. 
- Não vai vir não? - gritou um cara de olhos puxados, que imaginei ser o japa.
- Já fui! - gritei, entrando na brincadeira. Desci as escadas correndo também e me juntei aos outros. De repente senti em minha pele o que era o "fala para o Japa ligar". Um jato forte de água me deixou toda molhada. Pedro e o amigo que, pelo o que ouvi gritarem, se chamava Rafael, começaram a rir. - A piscina ainda tá vazia e eu já me molhei? - zombei comigo mesma.
- Pelo menos a gente vai se molhar, como prometia a palavra clube... - sussurrou Pedro em meu ouvido. Depois me beijou mais uma vez - Pelo menos estou te beijando, como prometiam as palavras estou apaixonado por você...
- Você é tão fofo... - sussurrei para ele.
- Tô sabendo - fez voz de machão. Eu ri, ele riu também.
- O que significa isso tudo, afinal? - perguntei.
- Que estamos namorando, eu acho... Isso se estivermos de acordo. - o encarei incredula. - Que foi?
- Eu aceito fugir com você e me pergunta se eu estou de acordo? - fingi seriedade 
- Foi só por educação - confessou. Dei um tapa de leve em seu braço. - Ai! Você bate forte! - . brincou. Eu ri. - Vem, quero que você conheça umas pessoas.  
    Ele me levou até um grupo. Nele me apresentou Vitor, Fábio, Japa - que na verdade se chama Kyle e Luana, namorada do Vitor. Rafael eu já conhecia.
    De repente a mangueira voou para dentro da piscina, molhando todo mundo. Deixaram lá até que enchesse o bastante. Subimos para a primeira parte da larga escada. Ficamos sentados lá. De vez em quando pulávamos dentro da piscina improvisada.
    Bem melhor do que ir ao clube.

Quando percebemos já era bem tarde. Trocamos de roupa rapidamente e voltamos correndo por onde viemos. 
   Logo estávamos na pracinha. Continuamos a correr, viramos duas vezes a esquerda, corremos de volta pela ladeira cheia de curvas e finalmente chegamos à estação de metrô.
   Mesmo eu insistindo Pedro acabou pagando minha passagem. Descemos as escadas e esperamos impacientemente. Assim que o trem parou, pulamos dentro dele. Quase caí, mas Pedro me segurou. 
   De repente o que foi o correndo da ida virou o interminavel da volta... Parecia que nunca chegávamos à estação Central. 
   Quando chegou, suspiramos aliviados e saímos junto com as outras pessoas. 
   A paz durou pouco. Tinhamos menos de quinze minutos e aquela caminhada nos tomaria pelo menos meia hora. Por isso tivemos de voltar a correr. 
   Assim que vimos a porta do clube paramos em frente a ela. 
   Menos de dois minutos depois o pai dele chegou. Sorrimos um para o outro. Éramos cumplices na fuga e nenhum dos dois abriria boca para falar sobre isso. 
   Entrei de novo no banco traseiro e o silêncio voltou a reinar.
   Logo eu estava em casa. Antes de eu sair do carro, Pedro me entregou um papel. Peguei-o e corri para dentro.
   Escancarei a porta da sala. Meu pai estava no sofá lendo o jornal - o interessante é que este estava de cabeça para baixo -, meu irmão jogando videogame e minha mãe bordando suas toalhas - que sempre têm animais que acabam sem pernas por falta de espaço. 
- Ah, oi filha - falou minha mãe - se divertiu? 
- Foi legal - pouco - muito na verdade - ainda pouco. 
- Hmm... - depois disso senti que o assunto tinha acabado. 
   Corri para o meu quarto. Tirei a roupa e entrei debaixo do chuveiro. Era como se aquele dia não tivesse acontecido. Perfeito demais. 
   Lavei meu cabelo. Devia estar cheio de cloro, e estava, mas não tanto quanto todos nessea casa imaginavam. 
   Assim que saí coloquei meu pijama e entrei no computador. Aproveitei o meu momento sozinha - antes que minha mãe ou meu pai arrancassem a porta fora - para abrir o papel que Pedro me dera. 
   Poucas palavras estavam escritas:  
        87256596 
        Beijos... Me liga. 
   Gravei o telefone no meu celular e deixei para ligar mais tarde. Tinha acabado de vê-lo.
   Abri o MSN e o orkut. 
   Tinha um novo scrap, era do Gabriel: 
    "Oi garota do amendoim" 
   Corei automaticamente e tratei logo de apagar o scrap, garota do amendoim não era meu apelido preferido. 
- Filha?!
- Diz... 
- Jantar! 
   Quase na mesma hora meu estômago roncou. Saí do computador e fui para sala. O cheiro de macarrão era irresistível.
   Enquanto enrolava o macarrão no garfo, pensei: "Com certeza ilha do paraíso..." 
      

  

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