28 de janeiro de 2010

Você quer mesmo saber? POIS EU NÃO!

- Mãe!
- Qual é o problema? É só um jogo!
- Eu não vou!
- Por quê?
- Eu não quero voltar para casa com gritos de garotos suados e preguentos na cabeça!
- Mas filha... - e então ela apela para o sentimentalismo - Você não tem mesmo nem um tipo de consideração pelo seu irmão? - suspiro forçado - Onde foi que eu errei?...
- Argh! Se eu for você para de lamentar o quanto eu sou mimada?
- Provavelmente...
- Tá bom, eu vou... - Odeio quando as mães tentam convencer a gente de alguma coisa. E odeio ainda mais quando elas conseguem.
   Assim que ela saiu, com um sorriso escancarado, e foi para a cozinha eu me joguei na cama.
   Minha linha de pensamento começou a funcionar. E então a ficha realmente caiu: Eu ia a um jogo... A última coisa que queria fazer em uma trilhão de anos! Agora eu faria. 
   O ódio pós raciocínio estava me consumindo. Por que eu nunca luto até o fim?
   É como se existisse um dispositivo dentro de mim que me obrigasse a dizer sim antes de pensar em dizer o não! De repente a história de que fomos feitos em fábricas não é tão mentira assim. E o fabricante era muito mau!
   Desisti do ódio e passei para o negativismo. Ou seja, cheguei à conclusão de que estava tudo péssimo! Eu iria a um jogo! 
   Levantei e fui para o banheiro. Tirei a roupa e entrei debaixo do chuveiro.
   Fiquei enrolando no banho até que ouvi minha mãe patinhando no corredor e arrancando a maçaneta. Vesti o roupão antes que ela fizesse comigo o que fez com a ultima violeta - que hoje em dia está quebrada em mil pedacinhos.
   Quando saí pela porta vi o fenômeno da cor da minha mãe passar por vermelho, roxo, azul e finalmente voltar ao branco - cor natural dela.
   Ela me encarou incrédula e irritada e deu de ombros. Deu as costas e voltou à cozinha. 
   O cheiro de Strogonoff era atraente. Corri para trocar de roupa. Peguei meu short jeans velho e minha camiseta de algodão - que minha mãe odeia. Calcei minhas sandálias rasteiras e corri para a sala. Parei a três centímetros de fazer minha mãe derrubar tudo. 
   Fiquei observando suas caretas enquanto ela engolia os milhares de palavrões que lhe subiam à boca. Por fim apenas murmurou: 
- Vai querer Coca? - assenti. Evitar palavras era fazer surgir uma grande chance de não ficar de castigo. 
   Ela desapareceu na cozinha. 
   Peguei meu prato e me joguei no sofá. Liguei a televisão e pus na Globo. Sessão da Tarde é sempre uma boa pedida quando se quer esquecer da burrada que se fez.
- Come logo - disse minha mãe - porque vamos sair às cinco e meia. - Com que desprezo ela trata a refeição quando se trata do jogo do seu campeãozinho! 
- Tá. - falei. Ela revirou os olhos quando viu que eu estava vendo filme. 
- Você nunca aprende o lixo que a televisão é... 
- E você nunca fala isso quando é meu irmão que está vendo! - rebati. Ela engoliu mais palavrões. Suas caretas foram mais esquisitas, ou seja, os palavrões que engoliu foram maiores e mais obscenos do que os últimos... 
- Ande logo - disse e então se levantou e sumiu no quarto. Mesmo estando na sala que ficava a dois comodos de distancia dela pude ouvir seus palavrões gritados. Iam de leves a proibidos para menores de dezoito anos.
   Ri baixo. Ouvir aqueles palavrões saindo da boca da minha mãe era a maior contradição desse mundo. Ela que é sempre tão certinha e requintada gritando aquilo era desconcertante, até.
  Terminei de comer e levei o prato para a cozinha. Lavei rápido e voltei para o quarto. Se minha mãe pensava que eu ia trocar de roupa estava muito enganada. Apenas prendi meu cabelo em um rabo-de-cavalo muito mal feito e coloquei um brinco qualquer. 
   Quando voltei à sala ela já estava me esperando, impaciente.
   Peguei a chave na prateleira e destranquei a porta.
   Ela rapidamente desarmou o alarme do carro e entrou. Deu a partida. Tranquei a porta e entrei do lado do carona. Ela ligou o rádio.
- Que música quer ouvir? - perguntou. Dei de ombros. Ela colocou em uma rádio qualquer e saiu pelo portão.
   Percebi a que estava condenada quando ela virou a esquina e sorriu. E então eu tinha certeza... O jogo não seria a pior coisa...

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