2 de fevereiro de 2010

Final feliz

0 passaram por aqui
Respirei fundo tentando me acalmar enquanto as palavras se arrastavam e tornavam o clima daquele lugar insuportável...
- Como pôde? - perguntei, tremendamente magoada.
- Dá um crédito, por favor, eu tinha que de algum jeito chamar sua atenção...
- Pra isso fingiu que me amava? - perguntei, tentando me conter. 
- Eu não achei que um dia você fosse dizer isso para mim! - falou. 
- E eu não achei que você pudesse ser tão falso e mentiroso! Era por isso que se sentia culpado? Por ter fingido me amar e eu como boba, ter acreditado? Lindo! - zombei. 
- Mas, deixe-me terminar! 
- O que? Agora vai dizer que isso foi no ínicio e que agora você realmente me ama? - perguntei - Isso é coisa de filme e de livros de conto de fadas, Gabriel! De verdade as coisas não são bem assim!
- Eu juro que mudo! Eu prometo nunca mais mentir para você! Agora por favor, me dê uma chance?
- Me responde uma coisa? 
- O que? 
- O que você sente de verdade por mim?
- Na verdade eu não sei... - confessou - se você me beijar eu posso te explicar... - pediu. 
    Fiquei de pé. Meu coração disparava e minhas pernas tremiam, mas ignorei isso tudo e continuei a andar. Meus lábios estavam nos dele. De repente suas mãos estavam em meus cabelos e seu beijo me prendia a ele de uma forma estranha. Como se, naquele momento, a pedra que voltou, estivesse subindo sozinha. Como se o erro fosse não estar com ele.
   Então eu parei.
   Ele me encarou. Sorria. Voltei e me sentei em minha cadeira.
- Agora me explique! - exigi.
- Ponha a mão em meu coração. - pediu. Obedeci. O coração dele batia tão rápido quanto o meu. - isso nunca aconteceu - confessou - E tem mais: Eu estou nervoso. Eu fico nervoso perto de você. Isso também nunca aconteceu! E eu estou com medo de te perder, eu não quero ficar longe de você! - no fim suas palavras já estavam emboladas.
- Vem comigo... - pedi, calma.
     Saí porta afora. Ele me seguiu. Paramos em uma esquina. A rua estava quase vazia, tirando os garis e algumas crianças que brincavam de peteca.
- O que?
- Você está sendo sincero comigo? - perguntei. 
- A única coisa que falei sem pensar foi o eu te amo
- Mas...
- Você sentiu meu coração, você viu como ele batia rápido. 
- E Rebeca? 
- Naquela noite em que a beijei, eu estava o tempo todo olhando para você, medindo sua reação. Nosso quase namoro não durou nem uma semana... Eu queria te beijar... 
- Nossa, eu não... Eu.. - era informação demais. Precisei me encostar na parede. Na verdade, precisei me agarrar a ela. 
- Tudo bem? - perguntou, preocupado.
- Acho que sim - arfei. 
- Eu não sei mais o que eu sinto... 
- Você está apaixonado... 
- Ah... - falou. - E você? 
- Nem sei o porquê de estar me perguntando isso! - disse. Senti seus braços envolverem a minha cintura. Passei os meus por seu pescoço e alisei seus cabelos. - Preciso fazer uma coisa antes. Venha comigo.

Andamos bastante até chegar à ladeira. Sentei no chão. Ele se sentou ao meu lado. 
  Peguei uma pedra e a lancei ladeira acima. Ela não desceu. 
- Agora sim - murmurei. 
- Tudo está como devia - completou. 
  Fiquei de pé. 
  Ele ficou também. 
  Senti seus braços em minha cintura novamente. Voltei a por as mãos em seu pescoço e alisar seus negros cabelos. Fiquei nas pontas dos pés e olhei-o nos olhos. Ele sorriu. 
- Eu te amo... - sorri, satisfeita. 
- Eu te amo... - sussurrei
  Fechei os olhos e cheguei mais perto para por meus lábios nos seus mais uma vez...

Incerteza

0 passaram por aqui
Eu sabia que meus pés tocavam o chão, mas era impossível senti-los. Minhas mãos tremiam. Meu coração batia de uma forma frenetica. Talvez até audível.
   Passei meus dedos pelo seu cabelo negro. Gabriel sorria, mas era cauteloso. Se eu tentasse aquilo, ele me impediria?
- Gabriel... eu...
- O que está fazendo? - perguntou, me olhando nos olhos.
- Como sou idiota! - gritei de repente.
- Claro que não!
- Como não? Olha o que estou fazendo! - voltei os dois pés totalmente para o chão. Eu era covarde demais para fazer isso... 
- O que você queria me dizer naquela noite? 
- Que eu... Também te amo... - sussurrei, uma parte de mim sabia que ele ia ouvir, mas outra estava tão envergonhada que não queria isso.
- Tá brincando? - perguntou - Se for brincadeira, por favor me diga! - que garoto difícil de convencer.
- Não, não estou... - falei, corando. Seus dedos contornaram meus lábios. 
- Como esperei para ouvir isso...
- Você me ama, Gabriel? 
    Ele não respondeu. Apenas ergueu meu rosto com o indicador e me olhou bem fundo nos olhos. Fechei os meus. Sonho, talvez. E eu não tentaria acordar. Seus lábios beijaram os meus. Ele estava ansioso, parecia culpado. Rebeca? Ele sentia culpa por ela? Ele gostava dela? 
   Tirei meus lábios subitamente. Uma expressão de confusão passou por seu rosto.
- O que foi? - perguntou. - Alguma coisa errada?
- Você ainda gosta dela. - não era uma pergunta.
- Do que...?
- Rebeca! Vo- você ainda gosta dela! - gaguejei, enquanto lutava contra a decepção - Se sente culpado por a estar traindo! - cambaleei de novo. Ignorei e saí correndo.
    Parei só quando estava bem longe.
    Caminhei até minha casa.
    Eu sabia que meus pais e meu irmão não estavam lá. Eles tinham ido jantar fora e provavelmente só voltariam mais tarde. Tipo onze. Ainda eram sete e meia. 
    Fui para meu quarto. Troquei de roupa e me deitei na cama. Peguei um livro qualquer e comecei a ler. Era bom mergulhar nos dramas de outro personagem. O ruim era lembrar que ele teria um final feliz. Eu não.
    Estava cansada demais. Acabei mergulhando na escuridão...

Acordei com o toque do celular. Bocejei e peguei-o. O número era conhecido. Gabriel? Eu ia atendê-lo? Parece que sim... 
- Alô? - falei, sonolenta.
- Estava dormindo?
- O que você quer?
- Preciso te encontrar... - sua voz era suplicante. Ele estava implorando? 
- Onde?
- Pode ser na lachonete, perto do cinema?
- Pode. Que horas?
- Amanhã, uma hora?
- Tá...
- Não está brava comigo? - perguntou.
- Estou... Mas você já me amou um dia, agora sei o que você passou, então tenho a consciencia de que te devo muito... - expliquei. 
- Mas...
- Até amanhã, Gabriel... 
- Até... 
    Desliguei o telefone e levantei. Já devia ser tarde. Saltitei até a sala. Minha mãe e meu pai estavam no sofá, abraçados? 
    Fiquei escondida, olhando, e... ouvindo...
- Eu sinto muito por não ter lhe contado antes...
- Quer dizer que vai ficar?
- É.
- Mas e seu filho, sua esposa?
- Não tenho um filho e não sou casado legalmente. - afirmou.  
- Sério? - minha mãe não conseguia acreditar. 
- Sim. Ah, Helô, eu sei que a gente brigava muito. Na maioria das vezes quem começava a briga era eu, mas tudo isso porque eu não entendia como não conseguia te esquecer... Agora eu sei...
- E por que era? 
- Porque eu ainda te amo... - eu estava ouvindo isso mesmo? 
- Eu também... - Meus pais estavam se declarando? 
- E se tentássemos de novo? 
- Parece uma ótima ideia...
   Depois eles se beijaram de uma forma que nunca vira se beijarem. Nem quando ainda eram casados. Como se fossem um casal adolescente apaixonado. Repeli a ideia rapidamente. Isso me lembrava outra coisa que no momento queria esquecer. 
   Apareci na sala. Eles se interromperam e riram.
- Você ouviu? - assenti - E está feliz?
- Muito! - gritei e pulei no colo dos dois. Era perfeito! Isso se não voltassem a brigar... Mas pelo que vi ali, isso não aconteceria mesmo.
   Erámos finalmente uma família feliz...

Na manhã seguinte acordei tarde. Ou melhor, fingi acordar tarde... A verdade era que estava desperta às sete e meia.
   Assim que deu, escapei de casa e fui à lanchonete. Quando passei pela porta vi Gabriel. A ansiedade me deixava com uma sensação esquisita na boca do estômago. Quis ir embora, mas ele me viu antes que eu pudesse fazer isso... 
- Juliana? - fui até ele e esperei. 
- Oi... - respondi, envergonhada.
- Acho que temos muito o que conversar... - falou, asperamente. Não era típico dele.
- É - falei, asssentindo. Eu não estava pronta, mas, pelo que tinha sentido nos últimos dias, nunca estaria.
   Encarei-o e esperei.

1 de fevereiro de 2010

Na corda bamba

0 passaram por aqui
Desde que Pedro voltou de Petrópolis as coisas andam meio estranhas entre a gente... Não fugimos mais para outros bairros. Não telefonamos mais um para o outro de madrugada. Mal saimos juntos. E o pior de tudo, é que isso me deixa aliviada...

Estávamos os dois na sala do cinema. Seus braços em volta de minha cintura. A proximidade me deixava desconfortável. Às vezes parecia que ele ia me beijar, mas apenas me olhava e voltava a ver o filme. Era estranho, quer dizer, ele era meu namorado.
   Arrisquei olhá-lo. Seus olhos estavam bem abertos e pareciam olhar a tela, mas tinha certeza de que não estava realmente vendo... Me perguntei o que estaria pensando.
- Está tudo bem? - perguntei em um sussurro.
- Tá... - não me convenci.
- Tem certeza? - insisti.
- Juliana? - há quanto tempo ele não me chamava assim - Acho que precisamos conversar.
- Ah - respondi. Eu já sabia onde isso ia dar. - Agora?
- É...
   Ele se levantou e saiu do cinema. Eu o segui. Acabamos sentados em um banco que tinha ali. 
- O que foi? - perguntei, apesar de já saber... 
- Eu acho que já deu... - falou, sério. Assenti, sem falar nada. - Foi bom enquanto durou, mas não é mais a mesma coisa... - continuou. - Você está distante e eu também... E eu estava querendo te contar...
- O que? - perguntei, qualquer coisa que ele me dissesse não ia importar... 
- Eu te traí, Juliana... - não magoou, mas pegou de surpresa. 
- Como? - precisei de um segundo pra assimilar. 
- Eu conheci uma garota em Penedo. Nós acabamos ficando, e agora, ela vai vir aqui para Belo Horizonte... E... Juliana, eu, eu... tô apaixonado por ela...  
- Ah - murmurei simplesmente.
- Não está com raiva? - perguntou, surpreso e confuso.
- Não... - fui sincera.
- Por quê?
- Deveria?
- Provavelmente...
- Eu não gosto mais de você, Pedro... 
- O que? - sua expressão foi de raiva a surpresa. 
- Eu estou apaixonada por outro... - expliquei. 
- E quem é ele? - perguntou, tentando se controlar. 
- Gabriel...
- O vendedor de amendoim?!!
- Conhece ele? - perguntei
- Claro, ele é da escola do meu irmão! 
- Ah... 
- Por que não me contou? 
- Eu ia, mas você acabou falando primeiro. E agora estamos aqui. 
- Entendo... - não parecia. 
- Você foi em Penedo? 
- Meu pai acabou levando a gente lá... - falou, desatento...
- Então é por aqui que acaba? 
- Parece... 
- Então, obrigada, Pedro... Foi muito bom mesmo. Me fez bem... 
- De nada... E obrigado a você também. 
- Não tem de que...
    Dei as costas e saí para a noite fria. Pelo reflexo do vidro pude ver ele entrar na sala de novo. E era ali que acabava. E também começava. Uma outra história...

Já estava andando há um bom tempo. Não queria ligar para minha mãe. Nem para o meu pai... Andar parecia uma boa para esfriar a cabeça... 
  Decidi parar em um resturante para comer alguma coisa. Ou melhor, uma lanchonete. Não tinha tanto dinheiro assim...
- Boa noite, senhorita. - falou o homem do caixa. Um cara barbudo de uns cinquenta anos...
- Boa noite - olhei os salgados - pode me dar uma empada de frango com cheddar?
- É pra já. - ele pegou e me deu - O refresco é de que? Limão ou uva?
- Uva...
- Aqui está - falou, colocando-o na minha frente.
- Quanto dá?
- Dois reais...
- Aqui está. - entreguei a nota.
- Obrigado, mocinha... 
- Não tem de que... - que Déjà vu. 
     Levei tudo e me sentei em uma mesa. Enquanto comia olhava o movimento noturno. Era pouco, mas distrativo...
- Juliana?!! - perguntou uma voz 
- Gabriel? O que tá fazendo aqui? 
- Trabalho aqui meio turno. Vou sair oito horas... Quer me esperar? - perguntou, parecia envergonhado. 
- Tá... Pode ser... 
- Aconteceu alguma coisa? - perguntou, curioso. 
- Mais ou menos. - confessei. 
- Aí? - chamou o dono - Posso te liberar mais cedo, quer? - perguntou a Gabriel. 
- Valeu! - disse ele, feliz. Deixou o avental e a prancheta em cima do balcão.
    Saímos pela porta em silêncio. Eu não estava a fim de falar... 
- E então, o que aconteceu? 
- Eu terminei com o Pedro - um brilho estranho passou por seus olhos. 
- Por quê? 
- Não dava mais certo. Ele estava gostando de outra. E eu também não gosto mais dele... 
- Ah... 
- Gabriel? 
- O que?
- Eu estou apaixonada por outro! 
- Ah... - murmurou novamente. - Quem? - perguntou desanimado. Ele não podia pensar nele mesmo? 
    Fiquei na ponta dos pés para ficar da sua altura. Olhei nos seus olhos. Senti meu coração disparar. Cambaleei um pouco e caí sentada na calçada. Arfei e desisti de levantar. O chão parecia um ótimo lugar.
- Você está bem?
- Não sei ao certo - respondi. Estava enxergando embaçado. Por quê?
- Está chorando?
- Está explicado - sussurrei comigo mesma.
- O que?
- Nada, nada não. - ele estendeu a mão. Agarrei-a a ele me puxou. Estava de pé novamente, mas havia uma grande chance de eu cair de novo. - cadê a Rebeca? 
- Ela está na aula de balé... 
- Ah... - que droga! - Vocês estão namorando? - perguntei, tentando fazer parecer uma conversa normal.
- Sim... Pelo que parece...
- Que bom... - menti - Gabriel?
- Oi?
- Posso tentar uma coisa?
- Depende.
    Fiquei nas pontas do pés novamente.
    Dessa vez eu não cairia...

Os dois lados da maçã

0 passaram por aqui
Tudo me fazia voltar a mesma filosofia. A da maçã. Agora eu tinha certeza de que Gabriel era o lado proibido, o lado envenenado e o mais atraente... E isso estava me apavorando.
   Eu tinha prometido a ele minha amizade. E não tinha porque não dar isso a ele. Era o mínimo que eu podia fazer...
   Mas estava cada vez mais complicado...

Manhã de sábado. Namorado viajando. Sem sono. Computador idiota! Sem nada para fazer. Celular tocando... O que?
  Corri para meu celular. Era Gabriel.
- Alô?
- Oi, Ju... - sussurrou, com sua voz sempre calma. - Tá livre hoje? 
- Tô, alguma idéia? 
- Tenho. Minha mãe viajou e deixou a casa só pra mim. Tava pensando da gente alugar um dvd.
- Só a gente? - perguntei, mais animada com a ideia do que devia.
- Bom, não. É que eu conheci uma garota... - não gostei. - E ela vem também. Pode chamar alguns amigos se quiser - falou.
- Tá - resmunguei.
- Algum problema? - perguntou, confuso.
- Nenhum - disfarcei minha voz.
- Tá bom, então.
- Que horas é pra ir? - perguntei.
- Pode vir a hora que você quiser...
- Tudo bem, então.
- Tchau, Ju. - ele desligou.
  Garota? Mas ele não me amava?
  Também, o que eu tinha com isso? Eu tinha namorado! Por que o lado proibido da maçã é sempre o mais atraente? Que droga!
  Saí do quarto. Meu pai estava roncando no sofá com o jornal a cara. Minha mãe preparava panquecas e meu irmão já estava pregado no videogame. Toda vez que eu o via ele estava com o joystick na mão. O garoto não tem vida social, não?
- Vai querer panquecas também, querida? - perguntou minha mãe da cozinha.
- Vou - respondi, com a cabeça em outro lugar. 
- Tudo bem, querida? - às vezes odeio o sexto sentido materno. Fui até a cozinha. 
- Parece que não - murmurei comigo mesma.
- Por quê?
- Meu namorado, ele, não... - senti algumas lágrimas se formarem no canto de meus olhos. Lutei para impedi-las de cair. Meu pai resmungou alguma coisa na sala. Minha mãe se apressou logo em ver o que era. Aquela aproximação estava se tornando assustadora a insuportável.
- Depois conversamos, querida. Seu pai não está se sentindo muito bem. - explicou.
- Tá - respondi.
  Pulei no sofá e encarei o teto. E agora, ele riria de novo de mim?
  Parece que sim. E ele repetia o nome que eu menos queria ouvir: Gabriel... 

Quando o relógio marcou as cinco da tarde eu saí de casa. Minha mãe ficou de me buscar às onze. Eu tinha cinco horas e teria que aturar a amiga dele. Resolvi chamar o Rafael. Ele me manteria ocupada com suas bobagens enquanto eu tentava não pensar no que eu estava sentindo. A raiva, ou melhor, o ciúme...
  Da porta de Gabriel já dava para ouvir as risadas. Ela já havia chegado. Péssimo!
  Ele logo veio atender a porta.
- Oi Juliana - ele nunca me chamava assim... - Essa aqui é a Beca... - Já tinha até apelido?
- Oi - respondi, azeda.
  Entramos. Os dois ficaram brincando um com o outro enquanto eu encarava o teto. O ar era insuportavelmente pesado e o ciúme me consumia de uma forma horrível. A pergunta que martelava na minha cabeça era: Por quê?
  Rafael chegou logo em seguida.
  Assim que estavamos todos reunidos, Gabriel pos o dvd. Era um filme de comédia romântica: Sorte no amor . Ele não escolheria aquilo sozinho. Isso era obra de Rebeca!
  Assistimos em silêncio. Gabriel com os braços em volta dela. Idiota!
  No final, na cena do beijo, no final feliz, eu vi a última coisa que precisava naquele momento: ela o beijou, e o mais insuportável é que ele correspondeu. Nojento! Preferi pensar em outras coisas enquanto aquilo acontecia. Era visivelmente irritante. 
  Rafael percebeu minha inquietação... 
- O que foi, Ju? 
- Hã? - perguntei, meio perdida. 
- Tá tão agitada - assinalou.
- Não é nada não... - menti.
- Tem certeza?
- Aham... 
  Nada além do ódio que consumia cada célula do meu corpo. 
  Continuei assistindo Romeu e Julieta se beijarem pelo resto da noite.  

Quando deu nove e meia, Rebeca teve que ir embora. Rafael já tinha ido. Assim, ficamos os dois sozinhos, eu tinha mais uma hora e meia e nenhuma coisa coerente para falar. Não enquanto aquela cena se repetia na minha cabeça.
  Estavamos nos encarando quando de repente meu celular tocou...
- Alô?
- Ju?
- Oi, lindo - falei. Não era normal eu chamá-lo assim. Gabriel me olhou, desconfiado.
- Escuta, eu devo voltar só terça, você pode me passar a matéria que eu perder? - perguntou.
- Claro... - falei, melosa.
- Valeu, linda...
- De nada, Pê... - ele desligou. Guardei o celular na bolsa. Gabriel me encarou por mais um segundo. 
- E então... - puxou assunto - O que você acha da Beca? - argh! 
- Ela é... legal - fiz uma careta na última palavra. 
- Tá falando sério? 
- Tô, por quê? 
- Sei lá, deu a impressão de que você pensava exatamente o contrário...
- Por quê? 
- As caretas que você fazia enquanto a gente, ammm, se beijava.
- Não sabia que estava olhando pra mim...
- E não estava - tentou disfarçar...
- Gabriel?
- Sim?
- Você a ama? - fui direta.
- Sim. - respondeu automaticamente. Isso me machucou. Duas lágrimas se formaram no canto de meus olhos. Lutei para prende-las onde estavam. Não adiantou. - está chorando?
- Não - menti. Foi em vão.
- Por que está chorando? - perguntou, secando as lágrimas com seu dedo.
- Gabriel eu... - comecei, disposta a lhe contar toda a verdade. - Você... nós...
    De repente o celular dele tocou. Ele atendeu. Adivinhem quem era?
    Ele desligou rapidamente. Parecia disposto a ouvir o que eu tinha para dizer.
- O que falava?
- Nada, deixa para lá... - fui covarde. Talvez em outra hora.
- Tem certeza? - assenti - tudo bem, então... O que quer fazer?
- Quer brincar de o que você prefere?
- Claro, senhorita - fez voz grossa. Eu ri.
    Eu tinha certeza de muitas coisas. Mas a mais forte era a de que ele era meu amigo. E que por enquanto, isso bastava...

Pedras

0 passaram por aqui
Jogar futebol era muito divertido, mais do que imaginei, muito mais. O cansaço não era nada comparado a melhora que eu estava tendo. Claro que comparada a meu irmão eu ainda era um lixo. Mas comparada ao que eu era antes, me tornei praticamente uma jogadora de Copa do Mundo...
- Cobrança de falta é o tema de hoje - anunciou o professor - Enquanto vocês vão treinando o que já lhes ensinei, vou passando os recados semanais. O interessante é que nessa semana só temos um: Haverá um jogo semana que vem, contra outra escola. Eles também só tem dois meses de treinamento, então vão jogar de igual para igual. Vou entregar o papel e quero que me devolvam assinado na próxima aula. Agora, quero ouvir: A gente consegue?
- CONSEGUE!
- É isso aí! - aprovou - Mais meia hora e estão liberadas.
  Treinamos a cobrança de falta pelo resto da aula. 
  Assim que ele apitou peguei minhas coisas e fui para o vestiário. Me enfiei debaixo do primeiro chuveiro vazio que vi. Estava muito calor e eu estava muito suada.
  Saí, troquei de roupa e me despedi de minhas colegas de equipe...
  Logo estava descendo a mesma rua que descia três vezes por semana há dois meses...
  Estava tudo muito parado. Precisava de uma cor ou de um som. Coloquei os fones do Mp4 no ouvido e escolhi a música mais dançante que tinha ali.
  Sneakernight...
  Put your sneakers on
  Put your sneakers on,
  We're goin' dancin' all night long
  O convite era irresistível. Olhei para todos os lados para ver se a rua estava vazia. Estava. Comecei a imitar o clipe. Pulando para tudo quanto é lado e correndo como louca.
  Uma mão. Susto. Paralisada. Virei. Gabriel
- Você estava linda - falou. Corei. 
- Desde quando está me olhando? - perguntei, olhando meus pés. 
- Desde que começou a dançar... - confessou. - desculpe, não consegui resistir...
- Não tem problema - falei, escondendo a vermelhidão cada vez maior no meu rosto. 
- Não sabia que jogava futebol - mudou de assunto de repente. 
- Não sabia que você também jogava - falei, apontando para suas chuteiras.
- Jogo há um ano. - disse, orgulhoso. - Achei que não gostasse muito...
- Por quê?
- Porque da primeira vez que te vi no jogo você parecia que ia morrer ali.
- E da primeira vez que te vi você parecia que ia bater em mim, de tanto ódio...
- Então ficamos quites? - propôs.
- Quites - concordei. - Por que... ammm - hesitei
- Pode perguntar.
- Por que estava vendendo amendoins? 
- Eu só consigo pagar as aulas assim - ele sorriu. 
- Isso é bem, legal, Gabriel... - sussurrei, com medo de dizer as palavras erradas. Ou falar na hora errada. 
- Não sei se é ou não. Sei apenas que o futebol é meu sonho - soava como confissão. Será que ele já havia dito isso a alguém, alguma vez? Ele confiava em mim?
- Juliana? 
- Fala...
- Se eu te perguntar uma coisa vai ficar muito brava?
- Depende...
- Você gosta de verdade do Pedro? - isso me pegou desprevenida.
- Acho que sim... - fui sincera.
- Ah - murmurou, parecia querer se convencer de algo.
- Você parece meio triste - falei. Ele me encarou.
- É só um beijo, Ju, só um?
- Tá louco?! - gritei.
- Mas... - insistiu. Tampei sua boca com minha mão. Seus olhos se fecharam. O que ele estava fazendo?
- O que...? - não terminei. Tirei a mão de sua boca...
- Eu te amo... - sussurrou. Por essa eu não esperava. Me amar? Nem Pedro disse isso...
- Não pode estar falando sério! - falei, incrédula.
- Juro que estou... E se não posso te beijar, deixa pelo menos eu ser seu amigo?
- Amigo? - considerei por um momento - Tudo bem, eu acho...
- Bom, quem parece meio pra baixo aqui é você - falou, reinstalando o bom humor no ar.
- Não pensei que... - antes que eu pudesse terminar seu dedo cutucou minha cintura. Ri involuntariamente. Então era isso? Cócegas?
   Saí correndo atrás dele. Descemos a ladeira correndo até que no fim dela tropeçamos e caímos.
   Sentei no chão, mas Gabriel nem se moveu. Deitei de novo. 
- O que foi? - perguntei num sussurro.  
- Tá vendo aqueles pássaros ali?
- Sim. - respondi. - O que tem eles?
- Quando eu era pequeno, queria ser um deles... - confessou.
- Por quê?
- Para poder fugir quando coisas ruins aconteciam.
- Isso seria ótimo - concordei.
- Mas agora vejo que não se pode fugir dos problemas - encarou-me - Não é? 
- Acho que é... 
    Ficamos olhando os pássaros por mais alguns minutos em silêncio. 
- Que ver uma coisa que eu fazia? - perguntou de repente. Assenti. Ele pegou uma pedra e jogou lá em cima da ladeira.
- O que foi isso?
- Eu tinha uma teoria quando era pequeno.  A de que se a pedra rolasse de volta, alguma coisa estava errada.
- Parece que não tem nada errado então - conclui.
- Comigo não... Agora tenta você.
     Peguei a pedra entre os dedos e joguei-a no alto da ladeira. Ela voltou rolando e quicando.
- Parece que tem - falei.
- O que? - me perguntou - O que você acha que tem de errado?
- O jeito como estou em sentindo agora.
- E como é?
- Bem.
    Ele me encarou por um momento. Depois desviou o olhar e fitou o céu.
    Estava tudo confuso. Errado demais.

Jogando sujo

0 passaram por aqui
Namorar Pedro é como viver constantemente em uma montanha russa: nunca se sabe onde vai vir a proxima descida, ou no caso, a próxima aventura. Ele está sempre inventando coisas novas, saindo da rotina. A história do menino calado já foi por água abaixo. Um mês de namoro e parece que é apenas um dia. Eu diria que ele é tudo o que eu esperava que não fosse, mas tudo o que eu queria que meu namorado fosse. Complicado, mas acho que dá para entender. Feito por encomenda, mas alguns números acima do que eu visto. Quer dizer, alguns números acima não, muitos! Afinal, ele é louco!
  Desde daquela tarde na "ilha do paraíso", conseguimos fugir para mais três bairros: Floresta - onde ele me apresentou o melhor chocolate que já comi na vida, Santa Amélia e Ribeirão das Neves... 
  As aventuras são sempre novas. Fugir é sempre bom. Principalmente quando as ideias loucas dele estão no meio...
  As duas metades de um só todo...

Naquela tarde eu fui a primeira a ficar pronta. Minha mãe, meu pai e meu irmão ficaram muito assustados. Afinal, eu era a primeira a odiar um jogo. Isso, até eu conhecer Pedro.
- Dá pra ser ou tá dificil?
- Tá animadinha demais para o meu gosto - murmurou minha mãe - namorar cedo dá nisso!
- Já vai começar - resmunguei, impaciente.
- Eu vou dirigir hoje - afirmou meu pai.
- Não! - gritei - Você dirige devagar demais! Deixa minha mãe dirigir!
- Ela tá louca, mãe! Interna!
- Cala a boca, pirralho! - rosnei.
- Eu vou dirigindo e ponto! - terminou meu pai.
- Mas... - tentei. - Eu não...
- Nem mais uma palavra!
    Calei minha boca e segui resignada. Me sentei no banco do carona. E ai de quem tentasse me tirar dali.
    Minha mãe fechou a cara mas poupou palavras. Ela sempre tentava ser mais elegante quando estava na frente de meu pai.
    No meio do caminho um celular tocou. Todo mundo mexeu na bolsa para ver de quem era. Por fim era o meu. Atendi. Era Pedro.
- Alô?
- Oi linda. Escuta, tô com maior problemão...
- Pode falar...
- Meu pai resolveu fazer uma viagem de família esse fim de semana e agora eu e meu irmão temos que ir com ele na rodoviária e depois do mercadão pra comprar as passagens e o que falta.
- Concluindo...?
- Eu não vou poder ir ao jogo. .
- Ah - murmurei. Que droga! - tudo bem então...
- Depois eu te ligo. - falou, como forma de pedir desculpas.
- Tá - respondi, desanimada. 
- Curte o jogo por mim? 
- Claro...
- Promete?
- Aham... - falei, melosa. 
- E, nunca se esqueça...
- De que eu sou a dona do seu coração - completei. Ele riu. 
- E que... Você é muito linda! - agora eu ri. Essa foi boa! 
- Beijo, Pê... 
- Beijo... 
    Desliguei o celular. Estava tudo acabado. Minha vontade era ligar para minha amiga e ir pro shopping. A única razão que eu tenho para suportar o jogo é Pedro, que ama futebol... 
    Assim que meu pai estacionou, saí do carro e fui para dentro da quadra. Eu tinha feito uma promessa e ia cumpri-la, eu ia curtir o jogo...
   Me sentei no primeiro lugar que vi. Não cabia minha familia ali, o que era melhor ainda, porque quando juntava minha mãe e meu pai para torcerem pelo meu irmão ficava insuportável.
   Pude ver meu irmão correndo para dentro do vestiário. Eu ainda tinha duas horas de folga para fazer qualquer coisa que eu quisesse...
   Acabei me perdendo em meus pensamentos na "metade da segunda hora". Minha cabeça estava na escola, nos amigos e, pra varirar, em Pedro.
- Vai querer amendoim hoje também? - perguntou uma voz ao longe. Sacudi a cabeça e voltei à realidade.
- Como?
- Qualé, não se lembra de mim?
- Ah, oi, amm... Gabriel.
- Hmm...
- Que foi?
- Pelo menos lembra do meu nome... - eu ri sem humor algum. - Que é?
- Você me deu o apelido mais ridiculo que poderia ter dado e ainda acha que eu esqueceria seu nome? - falei, de mau humor.
- Te ofendeu mesmo?
- Não é ofensa, é só que apelidos não me agradam...
- Ah... - murmurou, desanimado.
- Que foi?
- Seu namorado vai chegar logo? - perguntou de repente.
- Ele não vem... Por quê?
- Queria ver quanto tempo ainda tinha com você...
- Tempo comigo?
- É...
- Eu não sou propriedade do meu namorado, Gabriel!
- Eu não quis dizer isso!
- Mas foi o que disse! - o ódio veio se instalar em minha cara, fazendo meu rosto ferver de raiva.
- Foi mal - parecia sincero. Respirei fundo.
- Tudo bem...  Mas vê se mede suas palavras da próxima vez...
- Tá...
     De repente o jogo começou. Comecei a assistir.
- Gosta de futebol?
- Não, mas meu namorado pediu para eu lhe passar o placar - menti.
- Seu namorado...
- Algum problema com ele? - perguntei, irritada.
- Não, claro que não - falou, sarcasticamente. 
- Qual é o teu problema, hein garoto? 
- Ele... - respondeu automaticamente. 
- Não estou te entendendo nem um pouco! 
- Ele tem você! - explicou. 
- Ah... - entendi, finalmente. - Como você pode ter raiva disso se nem me conhece?
- Porque eu gosto de você, queria te conhecer, mas ele fez isso primeiro e agora eu não tenho mais chance! 
- Você é louco!  
- Por quê? - perguntou, inocente.
- Por favor, vamos parar com isso? - implorei.
- Tudo bem... - concordou.
    Ele se levantou e desceu as escadas. Logo eu o tinha perdido de vista.
    Foi a primeira vez que prestei atenção em um jogo. E, por incrível que pareça, eu amei! Era tão incrivel... Os passes e os gols... Bonitos. Medir os calculados e os inesperados. Divertido, até.
    Incrível...

Naquela noite pedimos pizza. De atum, a favorita de todos naquela casa. A proximidade entre meu pai e minha mãe já estava me assustando. Quase um mês e meio e eles ainda não tinham brigado... Um milagre, praticamente... 
- Mãe? Pai? - pedi a atenção. 
- Sim, querida? - responderam em coro. 
- Posso fazer futebol? - eles se entreolharam, assustados. 
- Mas querida...
- Eu não vou desistir, eu prometo! 
- Tudo bem então - concordou minha mãe. 
- Por mim também - completou meu pai. Eu tinha conseguido. 
- Obrigada, eu amo vocês! 
   Eu sei que talvez estivesse jogando sujo. Eu não tinha tanta certeza se desistiria ou não. A unica coisa que sabia é que estava encantada pelo futebol e que queria tentar jogar. Não ia me custar muito. Eu achava, pelo menos.
   O jantar terminou preenchido com conversas irrelevantes. 
   Assim que fui para o meu quarto e fechei a porta, sentei na cadeira do computador e entrei no Msn. Pedro estava On...
   Oi linda 
   Oi Pepê. 
   E como foi o jogo? 
   Com relação a isso, tenho uma novidade... 
   Qual é? 
   Vou fazer futebol, Pê... 
   Sério? 
   Aham xD
   Que ótimo. Vou a todos os seus jogos! 
   Assim espero... ; )
   Tá prometido... Agora tenho que ir, linda. 
   Tá. Beijos <3   
   S2
  
  Deixei o computador de lado e deitei na cama. Encarei o teto. 
  Ele ria da minha cara e dizia: tadinha! Pensa que pode jogar futebol. 
  Fechei os olhos, e depois disso, não lembro de mais nada. 
  Até acordar no dia seguinte. 
  O primeiro dia de futebol...