2 de fevereiro de 2010

Incerteza

Eu sabia que meus pés tocavam o chão, mas era impossível senti-los. Minhas mãos tremiam. Meu coração batia de uma forma frenetica. Talvez até audível.
   Passei meus dedos pelo seu cabelo negro. Gabriel sorria, mas era cauteloso. Se eu tentasse aquilo, ele me impediria?
- Gabriel... eu...
- O que está fazendo? - perguntou, me olhando nos olhos.
- Como sou idiota! - gritei de repente.
- Claro que não!
- Como não? Olha o que estou fazendo! - voltei os dois pés totalmente para o chão. Eu era covarde demais para fazer isso... 
- O que você queria me dizer naquela noite? 
- Que eu... Também te amo... - sussurrei, uma parte de mim sabia que ele ia ouvir, mas outra estava tão envergonhada que não queria isso.
- Tá brincando? - perguntou - Se for brincadeira, por favor me diga! - que garoto difícil de convencer.
- Não, não estou... - falei, corando. Seus dedos contornaram meus lábios. 
- Como esperei para ouvir isso...
- Você me ama, Gabriel? 
    Ele não respondeu. Apenas ergueu meu rosto com o indicador e me olhou bem fundo nos olhos. Fechei os meus. Sonho, talvez. E eu não tentaria acordar. Seus lábios beijaram os meus. Ele estava ansioso, parecia culpado. Rebeca? Ele sentia culpa por ela? Ele gostava dela? 
   Tirei meus lábios subitamente. Uma expressão de confusão passou por seu rosto.
- O que foi? - perguntou. - Alguma coisa errada?
- Você ainda gosta dela. - não era uma pergunta.
- Do que...?
- Rebeca! Vo- você ainda gosta dela! - gaguejei, enquanto lutava contra a decepção - Se sente culpado por a estar traindo! - cambaleei de novo. Ignorei e saí correndo.
    Parei só quando estava bem longe.
    Caminhei até minha casa.
    Eu sabia que meus pais e meu irmão não estavam lá. Eles tinham ido jantar fora e provavelmente só voltariam mais tarde. Tipo onze. Ainda eram sete e meia. 
    Fui para meu quarto. Troquei de roupa e me deitei na cama. Peguei um livro qualquer e comecei a ler. Era bom mergulhar nos dramas de outro personagem. O ruim era lembrar que ele teria um final feliz. Eu não.
    Estava cansada demais. Acabei mergulhando na escuridão...

Acordei com o toque do celular. Bocejei e peguei-o. O número era conhecido. Gabriel? Eu ia atendê-lo? Parece que sim... 
- Alô? - falei, sonolenta.
- Estava dormindo?
- O que você quer?
- Preciso te encontrar... - sua voz era suplicante. Ele estava implorando? 
- Onde?
- Pode ser na lachonete, perto do cinema?
- Pode. Que horas?
- Amanhã, uma hora?
- Tá...
- Não está brava comigo? - perguntou.
- Estou... Mas você já me amou um dia, agora sei o que você passou, então tenho a consciencia de que te devo muito... - expliquei. 
- Mas...
- Até amanhã, Gabriel... 
- Até... 
    Desliguei o telefone e levantei. Já devia ser tarde. Saltitei até a sala. Minha mãe e meu pai estavam no sofá, abraçados? 
    Fiquei escondida, olhando, e... ouvindo...
- Eu sinto muito por não ter lhe contado antes...
- Quer dizer que vai ficar?
- É.
- Mas e seu filho, sua esposa?
- Não tenho um filho e não sou casado legalmente. - afirmou.  
- Sério? - minha mãe não conseguia acreditar. 
- Sim. Ah, Helô, eu sei que a gente brigava muito. Na maioria das vezes quem começava a briga era eu, mas tudo isso porque eu não entendia como não conseguia te esquecer... Agora eu sei...
- E por que era? 
- Porque eu ainda te amo... - eu estava ouvindo isso mesmo? 
- Eu também... - Meus pais estavam se declarando? 
- E se tentássemos de novo? 
- Parece uma ótima ideia...
   Depois eles se beijaram de uma forma que nunca vira se beijarem. Nem quando ainda eram casados. Como se fossem um casal adolescente apaixonado. Repeli a ideia rapidamente. Isso me lembrava outra coisa que no momento queria esquecer. 
   Apareci na sala. Eles se interromperam e riram.
- Você ouviu? - assenti - E está feliz?
- Muito! - gritei e pulei no colo dos dois. Era perfeito! Isso se não voltassem a brigar... Mas pelo que vi ali, isso não aconteceria mesmo.
   Erámos finalmente uma família feliz...

Na manhã seguinte acordei tarde. Ou melhor, fingi acordar tarde... A verdade era que estava desperta às sete e meia.
   Assim que deu, escapei de casa e fui à lanchonete. Quando passei pela porta vi Gabriel. A ansiedade me deixava com uma sensação esquisita na boca do estômago. Quis ir embora, mas ele me viu antes que eu pudesse fazer isso... 
- Juliana? - fui até ele e esperei. 
- Oi... - respondi, envergonhada.
- Acho que temos muito o que conversar... - falou, asperamente. Não era típico dele.
- É - falei, asssentindo. Eu não estava pronta, mas, pelo que tinha sentido nos últimos dias, nunca estaria.
   Encarei-o e esperei.

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