1 de fevereiro de 2010

Jogando sujo

Namorar Pedro é como viver constantemente em uma montanha russa: nunca se sabe onde vai vir a proxima descida, ou no caso, a próxima aventura. Ele está sempre inventando coisas novas, saindo da rotina. A história do menino calado já foi por água abaixo. Um mês de namoro e parece que é apenas um dia. Eu diria que ele é tudo o que eu esperava que não fosse, mas tudo o que eu queria que meu namorado fosse. Complicado, mas acho que dá para entender. Feito por encomenda, mas alguns números acima do que eu visto. Quer dizer, alguns números acima não, muitos! Afinal, ele é louco!
  Desde daquela tarde na "ilha do paraíso", conseguimos fugir para mais três bairros: Floresta - onde ele me apresentou o melhor chocolate que já comi na vida, Santa Amélia e Ribeirão das Neves... 
  As aventuras são sempre novas. Fugir é sempre bom. Principalmente quando as ideias loucas dele estão no meio...
  As duas metades de um só todo...

Naquela tarde eu fui a primeira a ficar pronta. Minha mãe, meu pai e meu irmão ficaram muito assustados. Afinal, eu era a primeira a odiar um jogo. Isso, até eu conhecer Pedro.
- Dá pra ser ou tá dificil?
- Tá animadinha demais para o meu gosto - murmurou minha mãe - namorar cedo dá nisso!
- Já vai começar - resmunguei, impaciente.
- Eu vou dirigir hoje - afirmou meu pai.
- Não! - gritei - Você dirige devagar demais! Deixa minha mãe dirigir!
- Ela tá louca, mãe! Interna!
- Cala a boca, pirralho! - rosnei.
- Eu vou dirigindo e ponto! - terminou meu pai.
- Mas... - tentei. - Eu não...
- Nem mais uma palavra!
    Calei minha boca e segui resignada. Me sentei no banco do carona. E ai de quem tentasse me tirar dali.
    Minha mãe fechou a cara mas poupou palavras. Ela sempre tentava ser mais elegante quando estava na frente de meu pai.
    No meio do caminho um celular tocou. Todo mundo mexeu na bolsa para ver de quem era. Por fim era o meu. Atendi. Era Pedro.
- Alô?
- Oi linda. Escuta, tô com maior problemão...
- Pode falar...
- Meu pai resolveu fazer uma viagem de família esse fim de semana e agora eu e meu irmão temos que ir com ele na rodoviária e depois do mercadão pra comprar as passagens e o que falta.
- Concluindo...?
- Eu não vou poder ir ao jogo. .
- Ah - murmurei. Que droga! - tudo bem então...
- Depois eu te ligo. - falou, como forma de pedir desculpas.
- Tá - respondi, desanimada. 
- Curte o jogo por mim? 
- Claro...
- Promete?
- Aham... - falei, melosa. 
- E, nunca se esqueça...
- De que eu sou a dona do seu coração - completei. Ele riu. 
- E que... Você é muito linda! - agora eu ri. Essa foi boa! 
- Beijo, Pê... 
- Beijo... 
    Desliguei o celular. Estava tudo acabado. Minha vontade era ligar para minha amiga e ir pro shopping. A única razão que eu tenho para suportar o jogo é Pedro, que ama futebol... 
    Assim que meu pai estacionou, saí do carro e fui para dentro da quadra. Eu tinha feito uma promessa e ia cumpri-la, eu ia curtir o jogo...
   Me sentei no primeiro lugar que vi. Não cabia minha familia ali, o que era melhor ainda, porque quando juntava minha mãe e meu pai para torcerem pelo meu irmão ficava insuportável.
   Pude ver meu irmão correndo para dentro do vestiário. Eu ainda tinha duas horas de folga para fazer qualquer coisa que eu quisesse...
   Acabei me perdendo em meus pensamentos na "metade da segunda hora". Minha cabeça estava na escola, nos amigos e, pra varirar, em Pedro.
- Vai querer amendoim hoje também? - perguntou uma voz ao longe. Sacudi a cabeça e voltei à realidade.
- Como?
- Qualé, não se lembra de mim?
- Ah, oi, amm... Gabriel.
- Hmm...
- Que foi?
- Pelo menos lembra do meu nome... - eu ri sem humor algum. - Que é?
- Você me deu o apelido mais ridiculo que poderia ter dado e ainda acha que eu esqueceria seu nome? - falei, de mau humor.
- Te ofendeu mesmo?
- Não é ofensa, é só que apelidos não me agradam...
- Ah... - murmurou, desanimado.
- Que foi?
- Seu namorado vai chegar logo? - perguntou de repente.
- Ele não vem... Por quê?
- Queria ver quanto tempo ainda tinha com você...
- Tempo comigo?
- É...
- Eu não sou propriedade do meu namorado, Gabriel!
- Eu não quis dizer isso!
- Mas foi o que disse! - o ódio veio se instalar em minha cara, fazendo meu rosto ferver de raiva.
- Foi mal - parecia sincero. Respirei fundo.
- Tudo bem...  Mas vê se mede suas palavras da próxima vez...
- Tá...
     De repente o jogo começou. Comecei a assistir.
- Gosta de futebol?
- Não, mas meu namorado pediu para eu lhe passar o placar - menti.
- Seu namorado...
- Algum problema com ele? - perguntei, irritada.
- Não, claro que não - falou, sarcasticamente. 
- Qual é o teu problema, hein garoto? 
- Ele... - respondeu automaticamente. 
- Não estou te entendendo nem um pouco! 
- Ele tem você! - explicou. 
- Ah... - entendi, finalmente. - Como você pode ter raiva disso se nem me conhece?
- Porque eu gosto de você, queria te conhecer, mas ele fez isso primeiro e agora eu não tenho mais chance! 
- Você é louco!  
- Por quê? - perguntou, inocente.
- Por favor, vamos parar com isso? - implorei.
- Tudo bem... - concordou.
    Ele se levantou e desceu as escadas. Logo eu o tinha perdido de vista.
    Foi a primeira vez que prestei atenção em um jogo. E, por incrível que pareça, eu amei! Era tão incrivel... Os passes e os gols... Bonitos. Medir os calculados e os inesperados. Divertido, até.
    Incrível...

Naquela noite pedimos pizza. De atum, a favorita de todos naquela casa. A proximidade entre meu pai e minha mãe já estava me assustando. Quase um mês e meio e eles ainda não tinham brigado... Um milagre, praticamente... 
- Mãe? Pai? - pedi a atenção. 
- Sim, querida? - responderam em coro. 
- Posso fazer futebol? - eles se entreolharam, assustados. 
- Mas querida...
- Eu não vou desistir, eu prometo! 
- Tudo bem então - concordou minha mãe. 
- Por mim também - completou meu pai. Eu tinha conseguido. 
- Obrigada, eu amo vocês! 
   Eu sei que talvez estivesse jogando sujo. Eu não tinha tanta certeza se desistiria ou não. A unica coisa que sabia é que estava encantada pelo futebol e que queria tentar jogar. Não ia me custar muito. Eu achava, pelo menos.
   O jantar terminou preenchido com conversas irrelevantes. 
   Assim que fui para o meu quarto e fechei a porta, sentei na cadeira do computador e entrei no Msn. Pedro estava On...
   Oi linda 
   Oi Pepê. 
   E como foi o jogo? 
   Com relação a isso, tenho uma novidade... 
   Qual é? 
   Vou fazer futebol, Pê... 
   Sério? 
   Aham xD
   Que ótimo. Vou a todos os seus jogos! 
   Assim espero... ; )
   Tá prometido... Agora tenho que ir, linda. 
   Tá. Beijos <3   
   S2
  
  Deixei o computador de lado e deitei na cama. Encarei o teto. 
  Ele ria da minha cara e dizia: tadinha! Pensa que pode jogar futebol. 
  Fechei os olhos, e depois disso, não lembro de mais nada. 
  Até acordar no dia seguinte. 
  O primeiro dia de futebol...  

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