1 de fevereiro de 2010

Na corda bamba

Desde que Pedro voltou de Petrópolis as coisas andam meio estranhas entre a gente... Não fugimos mais para outros bairros. Não telefonamos mais um para o outro de madrugada. Mal saimos juntos. E o pior de tudo, é que isso me deixa aliviada...

Estávamos os dois na sala do cinema. Seus braços em volta de minha cintura. A proximidade me deixava desconfortável. Às vezes parecia que ele ia me beijar, mas apenas me olhava e voltava a ver o filme. Era estranho, quer dizer, ele era meu namorado.
   Arrisquei olhá-lo. Seus olhos estavam bem abertos e pareciam olhar a tela, mas tinha certeza de que não estava realmente vendo... Me perguntei o que estaria pensando.
- Está tudo bem? - perguntei em um sussurro.
- Tá... - não me convenci.
- Tem certeza? - insisti.
- Juliana? - há quanto tempo ele não me chamava assim - Acho que precisamos conversar.
- Ah - respondi. Eu já sabia onde isso ia dar. - Agora?
- É...
   Ele se levantou e saiu do cinema. Eu o segui. Acabamos sentados em um banco que tinha ali. 
- O que foi? - perguntei, apesar de já saber... 
- Eu acho que já deu... - falou, sério. Assenti, sem falar nada. - Foi bom enquanto durou, mas não é mais a mesma coisa... - continuou. - Você está distante e eu também... E eu estava querendo te contar...
- O que? - perguntei, qualquer coisa que ele me dissesse não ia importar... 
- Eu te traí, Juliana... - não magoou, mas pegou de surpresa. 
- Como? - precisei de um segundo pra assimilar. 
- Eu conheci uma garota em Penedo. Nós acabamos ficando, e agora, ela vai vir aqui para Belo Horizonte... E... Juliana, eu, eu... tô apaixonado por ela...  
- Ah - murmurei simplesmente.
- Não está com raiva? - perguntou, surpreso e confuso.
- Não... - fui sincera.
- Por quê?
- Deveria?
- Provavelmente...
- Eu não gosto mais de você, Pedro... 
- O que? - sua expressão foi de raiva a surpresa. 
- Eu estou apaixonada por outro... - expliquei. 
- E quem é ele? - perguntou, tentando se controlar. 
- Gabriel...
- O vendedor de amendoim?!!
- Conhece ele? - perguntei
- Claro, ele é da escola do meu irmão! 
- Ah... 
- Por que não me contou? 
- Eu ia, mas você acabou falando primeiro. E agora estamos aqui. 
- Entendo... - não parecia. 
- Você foi em Penedo? 
- Meu pai acabou levando a gente lá... - falou, desatento...
- Então é por aqui que acaba? 
- Parece... 
- Então, obrigada, Pedro... Foi muito bom mesmo. Me fez bem... 
- De nada... E obrigado a você também. 
- Não tem de que...
    Dei as costas e saí para a noite fria. Pelo reflexo do vidro pude ver ele entrar na sala de novo. E era ali que acabava. E também começava. Uma outra história...

Já estava andando há um bom tempo. Não queria ligar para minha mãe. Nem para o meu pai... Andar parecia uma boa para esfriar a cabeça... 
  Decidi parar em um resturante para comer alguma coisa. Ou melhor, uma lanchonete. Não tinha tanto dinheiro assim...
- Boa noite, senhorita. - falou o homem do caixa. Um cara barbudo de uns cinquenta anos...
- Boa noite - olhei os salgados - pode me dar uma empada de frango com cheddar?
- É pra já. - ele pegou e me deu - O refresco é de que? Limão ou uva?
- Uva...
- Aqui está - falou, colocando-o na minha frente.
- Quanto dá?
- Dois reais...
- Aqui está. - entreguei a nota.
- Obrigado, mocinha... 
- Não tem de que... - que Déjà vu. 
     Levei tudo e me sentei em uma mesa. Enquanto comia olhava o movimento noturno. Era pouco, mas distrativo...
- Juliana?!! - perguntou uma voz 
- Gabriel? O que tá fazendo aqui? 
- Trabalho aqui meio turno. Vou sair oito horas... Quer me esperar? - perguntou, parecia envergonhado. 
- Tá... Pode ser... 
- Aconteceu alguma coisa? - perguntou, curioso. 
- Mais ou menos. - confessei. 
- Aí? - chamou o dono - Posso te liberar mais cedo, quer? - perguntou a Gabriel. 
- Valeu! - disse ele, feliz. Deixou o avental e a prancheta em cima do balcão.
    Saímos pela porta em silêncio. Eu não estava a fim de falar... 
- E então, o que aconteceu? 
- Eu terminei com o Pedro - um brilho estranho passou por seus olhos. 
- Por quê? 
- Não dava mais certo. Ele estava gostando de outra. E eu também não gosto mais dele... 
- Ah... 
- Gabriel? 
- O que?
- Eu estou apaixonada por outro! 
- Ah... - murmurou novamente. - Quem? - perguntou desanimado. Ele não podia pensar nele mesmo? 
    Fiquei na ponta dos pés para ficar da sua altura. Olhei nos seus olhos. Senti meu coração disparar. Cambaleei um pouco e caí sentada na calçada. Arfei e desisti de levantar. O chão parecia um ótimo lugar.
- Você está bem?
- Não sei ao certo - respondi. Estava enxergando embaçado. Por quê?
- Está chorando?
- Está explicado - sussurrei comigo mesma.
- O que?
- Nada, nada não. - ele estendeu a mão. Agarrei-a a ele me puxou. Estava de pé novamente, mas havia uma grande chance de eu cair de novo. - cadê a Rebeca? 
- Ela está na aula de balé... 
- Ah... - que droga! - Vocês estão namorando? - perguntei, tentando fazer parecer uma conversa normal.
- Sim... Pelo que parece...
- Que bom... - menti - Gabriel?
- Oi?
- Posso tentar uma coisa?
- Depende.
    Fiquei nas pontas do pés novamente.
    Dessa vez eu não cairia...

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