1 de fevereiro de 2010

Os dois lados da maçã

Tudo me fazia voltar a mesma filosofia. A da maçã. Agora eu tinha certeza de que Gabriel era o lado proibido, o lado envenenado e o mais atraente... E isso estava me apavorando.
   Eu tinha prometido a ele minha amizade. E não tinha porque não dar isso a ele. Era o mínimo que eu podia fazer...
   Mas estava cada vez mais complicado...

Manhã de sábado. Namorado viajando. Sem sono. Computador idiota! Sem nada para fazer. Celular tocando... O que?
  Corri para meu celular. Era Gabriel.
- Alô?
- Oi, Ju... - sussurrou, com sua voz sempre calma. - Tá livre hoje? 
- Tô, alguma idéia? 
- Tenho. Minha mãe viajou e deixou a casa só pra mim. Tava pensando da gente alugar um dvd.
- Só a gente? - perguntei, mais animada com a ideia do que devia.
- Bom, não. É que eu conheci uma garota... - não gostei. - E ela vem também. Pode chamar alguns amigos se quiser - falou.
- Tá - resmunguei.
- Algum problema? - perguntou, confuso.
- Nenhum - disfarcei minha voz.
- Tá bom, então.
- Que horas é pra ir? - perguntei.
- Pode vir a hora que você quiser...
- Tudo bem, então.
- Tchau, Ju. - ele desligou.
  Garota? Mas ele não me amava?
  Também, o que eu tinha com isso? Eu tinha namorado! Por que o lado proibido da maçã é sempre o mais atraente? Que droga!
  Saí do quarto. Meu pai estava roncando no sofá com o jornal a cara. Minha mãe preparava panquecas e meu irmão já estava pregado no videogame. Toda vez que eu o via ele estava com o joystick na mão. O garoto não tem vida social, não?
- Vai querer panquecas também, querida? - perguntou minha mãe da cozinha.
- Vou - respondi, com a cabeça em outro lugar. 
- Tudo bem, querida? - às vezes odeio o sexto sentido materno. Fui até a cozinha. 
- Parece que não - murmurei comigo mesma.
- Por quê?
- Meu namorado, ele, não... - senti algumas lágrimas se formarem no canto de meus olhos. Lutei para impedi-las de cair. Meu pai resmungou alguma coisa na sala. Minha mãe se apressou logo em ver o que era. Aquela aproximação estava se tornando assustadora a insuportável.
- Depois conversamos, querida. Seu pai não está se sentindo muito bem. - explicou.
- Tá - respondi.
  Pulei no sofá e encarei o teto. E agora, ele riria de novo de mim?
  Parece que sim. E ele repetia o nome que eu menos queria ouvir: Gabriel... 

Quando o relógio marcou as cinco da tarde eu saí de casa. Minha mãe ficou de me buscar às onze. Eu tinha cinco horas e teria que aturar a amiga dele. Resolvi chamar o Rafael. Ele me manteria ocupada com suas bobagens enquanto eu tentava não pensar no que eu estava sentindo. A raiva, ou melhor, o ciúme...
  Da porta de Gabriel já dava para ouvir as risadas. Ela já havia chegado. Péssimo!
  Ele logo veio atender a porta.
- Oi Juliana - ele nunca me chamava assim... - Essa aqui é a Beca... - Já tinha até apelido?
- Oi - respondi, azeda.
  Entramos. Os dois ficaram brincando um com o outro enquanto eu encarava o teto. O ar era insuportavelmente pesado e o ciúme me consumia de uma forma horrível. A pergunta que martelava na minha cabeça era: Por quê?
  Rafael chegou logo em seguida.
  Assim que estavamos todos reunidos, Gabriel pos o dvd. Era um filme de comédia romântica: Sorte no amor . Ele não escolheria aquilo sozinho. Isso era obra de Rebeca!
  Assistimos em silêncio. Gabriel com os braços em volta dela. Idiota!
  No final, na cena do beijo, no final feliz, eu vi a última coisa que precisava naquele momento: ela o beijou, e o mais insuportável é que ele correspondeu. Nojento! Preferi pensar em outras coisas enquanto aquilo acontecia. Era visivelmente irritante. 
  Rafael percebeu minha inquietação... 
- O que foi, Ju? 
- Hã? - perguntei, meio perdida. 
- Tá tão agitada - assinalou.
- Não é nada não... - menti.
- Tem certeza?
- Aham... 
  Nada além do ódio que consumia cada célula do meu corpo. 
  Continuei assistindo Romeu e Julieta se beijarem pelo resto da noite.  

Quando deu nove e meia, Rebeca teve que ir embora. Rafael já tinha ido. Assim, ficamos os dois sozinhos, eu tinha mais uma hora e meia e nenhuma coisa coerente para falar. Não enquanto aquela cena se repetia na minha cabeça.
  Estavamos nos encarando quando de repente meu celular tocou...
- Alô?
- Ju?
- Oi, lindo - falei. Não era normal eu chamá-lo assim. Gabriel me olhou, desconfiado.
- Escuta, eu devo voltar só terça, você pode me passar a matéria que eu perder? - perguntou.
- Claro... - falei, melosa.
- Valeu, linda...
- De nada, Pê... - ele desligou. Guardei o celular na bolsa. Gabriel me encarou por mais um segundo. 
- E então... - puxou assunto - O que você acha da Beca? - argh! 
- Ela é... legal - fiz uma careta na última palavra. 
- Tá falando sério? 
- Tô, por quê? 
- Sei lá, deu a impressão de que você pensava exatamente o contrário...
- Por quê? 
- As caretas que você fazia enquanto a gente, ammm, se beijava.
- Não sabia que estava olhando pra mim...
- E não estava - tentou disfarçar...
- Gabriel?
- Sim?
- Você a ama? - fui direta.
- Sim. - respondeu automaticamente. Isso me machucou. Duas lágrimas se formaram no canto de meus olhos. Lutei para prende-las onde estavam. Não adiantou. - está chorando?
- Não - menti. Foi em vão.
- Por que está chorando? - perguntou, secando as lágrimas com seu dedo.
- Gabriel eu... - comecei, disposta a lhe contar toda a verdade. - Você... nós...
    De repente o celular dele tocou. Ele atendeu. Adivinhem quem era?
    Ele desligou rapidamente. Parecia disposto a ouvir o que eu tinha para dizer.
- O que falava?
- Nada, deixa para lá... - fui covarde. Talvez em outra hora.
- Tem certeza? - assenti - tudo bem, então... O que quer fazer?
- Quer brincar de o que você prefere?
- Claro, senhorita - fez voz grossa. Eu ri.
    Eu tinha certeza de muitas coisas. Mas a mais forte era a de que ele era meu amigo. E que por enquanto, isso bastava...

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