1 de fevereiro de 2010

Pedras

Jogar futebol era muito divertido, mais do que imaginei, muito mais. O cansaço não era nada comparado a melhora que eu estava tendo. Claro que comparada a meu irmão eu ainda era um lixo. Mas comparada ao que eu era antes, me tornei praticamente uma jogadora de Copa do Mundo...
- Cobrança de falta é o tema de hoje - anunciou o professor - Enquanto vocês vão treinando o que já lhes ensinei, vou passando os recados semanais. O interessante é que nessa semana só temos um: Haverá um jogo semana que vem, contra outra escola. Eles também só tem dois meses de treinamento, então vão jogar de igual para igual. Vou entregar o papel e quero que me devolvam assinado na próxima aula. Agora, quero ouvir: A gente consegue?
- CONSEGUE!
- É isso aí! - aprovou - Mais meia hora e estão liberadas.
  Treinamos a cobrança de falta pelo resto da aula. 
  Assim que ele apitou peguei minhas coisas e fui para o vestiário. Me enfiei debaixo do primeiro chuveiro vazio que vi. Estava muito calor e eu estava muito suada.
  Saí, troquei de roupa e me despedi de minhas colegas de equipe...
  Logo estava descendo a mesma rua que descia três vezes por semana há dois meses...
  Estava tudo muito parado. Precisava de uma cor ou de um som. Coloquei os fones do Mp4 no ouvido e escolhi a música mais dançante que tinha ali.
  Sneakernight...
  Put your sneakers on
  Put your sneakers on,
  We're goin' dancin' all night long
  O convite era irresistível. Olhei para todos os lados para ver se a rua estava vazia. Estava. Comecei a imitar o clipe. Pulando para tudo quanto é lado e correndo como louca.
  Uma mão. Susto. Paralisada. Virei. Gabriel
- Você estava linda - falou. Corei. 
- Desde quando está me olhando? - perguntei, olhando meus pés. 
- Desde que começou a dançar... - confessou. - desculpe, não consegui resistir...
- Não tem problema - falei, escondendo a vermelhidão cada vez maior no meu rosto. 
- Não sabia que jogava futebol - mudou de assunto de repente. 
- Não sabia que você também jogava - falei, apontando para suas chuteiras.
- Jogo há um ano. - disse, orgulhoso. - Achei que não gostasse muito...
- Por quê?
- Porque da primeira vez que te vi no jogo você parecia que ia morrer ali.
- E da primeira vez que te vi você parecia que ia bater em mim, de tanto ódio...
- Então ficamos quites? - propôs.
- Quites - concordei. - Por que... ammm - hesitei
- Pode perguntar.
- Por que estava vendendo amendoins? 
- Eu só consigo pagar as aulas assim - ele sorriu. 
- Isso é bem, legal, Gabriel... - sussurrei, com medo de dizer as palavras erradas. Ou falar na hora errada. 
- Não sei se é ou não. Sei apenas que o futebol é meu sonho - soava como confissão. Será que ele já havia dito isso a alguém, alguma vez? Ele confiava em mim?
- Juliana? 
- Fala...
- Se eu te perguntar uma coisa vai ficar muito brava?
- Depende...
- Você gosta de verdade do Pedro? - isso me pegou desprevenida.
- Acho que sim... - fui sincera.
- Ah - murmurou, parecia querer se convencer de algo.
- Você parece meio triste - falei. Ele me encarou.
- É só um beijo, Ju, só um?
- Tá louco?! - gritei.
- Mas... - insistiu. Tampei sua boca com minha mão. Seus olhos se fecharam. O que ele estava fazendo?
- O que...? - não terminei. Tirei a mão de sua boca...
- Eu te amo... - sussurrou. Por essa eu não esperava. Me amar? Nem Pedro disse isso...
- Não pode estar falando sério! - falei, incrédula.
- Juro que estou... E se não posso te beijar, deixa pelo menos eu ser seu amigo?
- Amigo? - considerei por um momento - Tudo bem, eu acho...
- Bom, quem parece meio pra baixo aqui é você - falou, reinstalando o bom humor no ar.
- Não pensei que... - antes que eu pudesse terminar seu dedo cutucou minha cintura. Ri involuntariamente. Então era isso? Cócegas?
   Saí correndo atrás dele. Descemos a ladeira correndo até que no fim dela tropeçamos e caímos.
   Sentei no chão, mas Gabriel nem se moveu. Deitei de novo. 
- O que foi? - perguntei num sussurro.  
- Tá vendo aqueles pássaros ali?
- Sim. - respondi. - O que tem eles?
- Quando eu era pequeno, queria ser um deles... - confessou.
- Por quê?
- Para poder fugir quando coisas ruins aconteciam.
- Isso seria ótimo - concordei.
- Mas agora vejo que não se pode fugir dos problemas - encarou-me - Não é? 
- Acho que é... 
    Ficamos olhando os pássaros por mais alguns minutos em silêncio. 
- Que ver uma coisa que eu fazia? - perguntou de repente. Assenti. Ele pegou uma pedra e jogou lá em cima da ladeira.
- O que foi isso?
- Eu tinha uma teoria quando era pequeno.  A de que se a pedra rolasse de volta, alguma coisa estava errada.
- Parece que não tem nada errado então - conclui.
- Comigo não... Agora tenta você.
     Peguei a pedra entre os dedos e joguei-a no alto da ladeira. Ela voltou rolando e quicando.
- Parece que tem - falei.
- O que? - me perguntou - O que você acha que tem de errado?
- O jeito como estou em sentindo agora.
- E como é?
- Bem.
    Ele me encarou por um momento. Depois desviou o olhar e fitou o céu.
    Estava tudo confuso. Errado demais.

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