15 de abril de 2010

Personalidades estranhas... [1]

Já passava de três horas quando ele finalmente chegou. O sangue pingava de seus lábios grossos. Seus olhos eram de um negro assustador.
- Brian, por favor, eu te pedi...
- Chega Escarlett! Não insista...
- Você não vai nem tentar? - perguntei. Ele balançou os ombros e pulou pela janela. Eu o tinha perdido para a noite. 
  Não era a primeira vez que Brian voltava com sangue nos lábios e as roupas queimadas. E não seria a ultima, com certeza. Era só uma questão de tempo até que ele aparecesse com mais um corpo. Só eu sei com que custo escondo os nossos erros sob minha capa preta.
- Joane! - gritei. Ela se encolheu antes de responder. 
- Sim, senhora... 
- Traga um copo de água, por favor. - minha garganta queimava com se eu estivesse engolindo fogo.
  A figura miuda saiu pela porta. Sei que ela morria de pavor de mim, assim como de meus pais. E também sei que é por isso que não nos deixa. A mim e a Brian. Mas não há como ela ir embora. Preciso dela aqui.
  E por isso, preciso alimentar seu medo de morrer.
  Assim que Joane apareceu com o copo, e, com as mãos tremulas, entregou-me, mandei que saisse. Quando ouvi seus passos na escada e depois a porta bater no andar de cima, respirei aliviada. Não precisava de teatro, de fingimento.
  Tirei a capa, vesti a calça jeans, a blusa preta, calcei a bota de couro e saí para a escuridão.
  Pude ouvir o barulho da janela batendo por causa do vento.
- Ainda bem, Escar, achei que não viria... - disse, sorrindo. 
- Eu sempre venho, Brian... - respondi. - Mas, prometa que vai ser rápido, apesar de gostar do sangue, não gosto da dor. 
- Eu prometo, meu amor, prometo tudo o que quiser... 
  Peguei a faca do bolso e testei-a no dedo.
- Está boa! - afirmei. Ele sorriu maliciosamente e pegou-a de minha mão. 
  A janela foi aberta com facilidade. Ele foi na frente, depois entrei. Ouvimos ruidos vindos do quarto.
- Estão lá. Você cuida da mulher que eu cuido do cara, tá bom?
- Como quiser...
  Puxei meu facão e comecei a andar em silêncio pelos corredores vazios. A cada passo o som ficava mais próximo. Não sabia por onde Brian tinha ido, mas tinha certeza de que, lá, no quarto, nos encontraríamos. 
  Respirei fundo e toquei na maçaneta. Bastou virá-la para que os dois dessem um pulo da cama. Entrei, então, e me preparei para atacá-la. Ainda bem que medo não era um dos sentimentos que ficaram comigo.
  Mas a culpa era...

Peguei os dois corpos sem vida e arrastei-os pela sala, cozinha e banheiro. Brian vinha atrás, com os olhos mais serenos, e a fome saciada.
- Escarlett, não sei como consegue ficar mais de um dia sem isso...
- Costume...
- Ah, é. Seus pais eram muito valentes. Revolucionaram a ciência no nosso mundo.
- As injeções são bem eficazes, mas sempre termino assim. Brian, você é minha fraqueza, sabe disso, e se aproveita. Por quê?
- Escar, você sofre tentando viver assim...
- Eu entendo que quer me ver bem, mas o sofrimento é melhor do que a culpa.
- Tem que aceitar o que é, e do que precisa! - insistiu - Você bebe sangue humano e não pode viver sem ele...
- Eles planejavam ter um filho, sabia disso, Brian?
- Não, não sabia...
- E agora, não terão...
- Por favor, meu amor, não vamos voltar à estaca zero, vamos?
- Não, isso não vai acontecer. Mas eu te juro uma coisa.
- O quê?
- Nunca, nunca mais, vou trazer os corpos comigo...

4 comentários:

Naty Araújo disse...

Uau... me arrepiei lendo isso aqui.

Obrigada pelo seu recado lá no Remember... Sempre posto nas quintas.
Agradeço e sempre passarei por aqui para te ler.
Meu blog oficial é este aqui... http://revelandosentimentos.blogspot.com
Dá uma passada lá.

Beijos...

Naty Araújo disse...

Volte sim, será sempre bem vinda.
E mais uma vez li seu texto... Gosto de coisas assim, sabe?
Fortes e com emoção.

Post mais vezes e estarei aqui para admirar.

Beijos.

Malu disse...

Leeti, adoro o seu blog !

♥ Garota ♥ disse...

*-*