11 de maio de 2010

A alma que me habita

    Nunca vou entender o significado de autossuficiência. Tudo o que eu sabia era que eu era o bastante para mim mesma. Vivia sem sofrer, sem depender e sem amar ninguém. Minha vida era sem sentimentos, mas não vazia. Meu coração batia em um ritmo constante, não acelerava, não desacelerava, não batia descompassado. Meu corpo era uma dança perfeita. Minha vida, uma academia de mérito.
    Mas ontem a noite tive um sonho. Nele, um senhor de idade, chamado Tempo, me falava sobre algo desconhecido para mim, chamado solidão. Suas palavras me feriram. Ele foi a primeira pessoa que me atingiu, me magoou.
    Solitária. Isso é o que sou. Vivo em um mundo de ninguém, no qual só eu reino. Sou alienada, fechada. Não deixo o outro se aproximar de mim, somente para não me ferir. Sou egoísta, não quero que destruam meu castelo. Mas aí entra a parte falsa: meu castelo cairá em pouco tempo, pois é feito de areia. 
    Minha vida será destruída pelo tempo, que me tornará amargurada, desgostosa e ignorante - mais do que já sou. 
    Tempo, antes de ir embora, me deu um presente. Uma caixinha cinza com um laço preto. Pediu que só abrisse à noite, quando o vento viesse de encontro a minha janela. Bem mais tarde, quando ele balançou o vidro fraco de minh'alma, abri a caixa e deixei que a fita prateada, que havia lá dentro, penetrasse em meu ser e se agarrasse a cada uma de minhas células. 
    Um bilhete que estava no fundo, dizia que aquilo que agora me habitava, se chamava alma...  

Nenhum comentário: