10 de maio de 2010

Um segredo

Belo Horizonte, 10 de maio de 2010

Andrew,

   Provavelmente, após essa carta, nunca mais falará comigo, nem me amará. Mas esconder esse segredo está me consumindo de tal forma, que nem dormir eu consigo mais. Venho lutando contra esse desejo de contar-lhe tudo e me arriscar a perder para sempre o seu carinho. Porém, meu egoísmo não pode estar acima da sua felicidade. Quero que seus sentimentos por mim se baseiem na sinceridade. Para isso, tenho que começar dando o exemplo. 
   Vamos lá... 
   Há mais ou menos um ano, você me mandou uma carta na qual pedia que procurasse sua irmã e soubesse como ela estava. E eu realmente o fiz. Quando a encontrei no Rio de Janeiro, dia dezenove de Julho (sim, eu ainda me lembro), trouxe-a comigo para Belo Horizonte e fiz da vida dela a melhor possível. Ela falou muito de você para mim. Mostrou-me suas fotos de bebê, contou-me sobre a infância de vocês dois e por aí vai.
   Juliett - minha mãe -, logo sentiu uma simpatia imensa por ela e a convidou para morar conosco. Meu irmão imediatamente se apaixonou por ela e os dois começaram a namorar. Estão junto há dois anos. 
   Eu sei, você deve estar se perguntando o porquê de eu estar repetindo tudo isso que você já sabe, mas quando a pessoa com que você troca cartas está a uma distância de vinte anos, repetir as informações se torna necessário. Afinal, você vive em 1990.
   Bem, voltando ao que eu dizia, eles estão juntos. Mas aí entra a parte que eu não te contei. Hannah engravidou dele há dois meses, mas o médico disse que era provável que tanto ela quanto o bebê morressem antes mesmo do parto. Isso assustou-a e assustou também meu irmão. Hannah estava indecisa com relação ao aborto e me pediu que perguntasse a você. Mas eu não o fiz.
   Eu disse a ela que fizesse o que achasse que era melhor.
   Agora, no final dessa carta, sinto que errei ao usar esses tempos verbais, pois há mais ou menos uma semana, ela morreu de infecção generalizada por causa do aborto, que foi feito clandestinamente. Eu matei sua irmã, Andrew, e sinto muito. Agora pode me odiar para sempre. 
   Não espero mais respostas como antes, mas peço que tente me perdoar. Eu sei que você sente que cometeu um erro ao morrer em 2002, já que estava conduzindo bêbado e bateu. Lembro-me do quanto sofreu quando lhe contei isso, assim que descobri. E, justamente por isso, sei que o que lhe conto agora o deixará ainda mais magoado. 
    Perdoe-me, meu amor. 
                   
                                    Um último beijo da futurista,
                                                                           Anne  



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Pauta para o Bloínquês

2 comentários:

Nathy disse...

Nossa, que triste! Muito bom seu texto, embora triste, rs.

Ariane disse...

CARAMBA! Que final totalmente inesperado.
Confesso que no início, quando comecei a lê-la achei que iria ser mais um daquelas histórias que todo mundo sabe o final. Mas pode crêr foi uma surpresa e tanto.
MUUUUUUITO BOM.Parabéns
Beeijo