18 de junho de 2010

Estranhamente amável.

   Eu chamo metade do que está nessas mesas de bugiganga. Mas, como meus professores de biologia, química e física discordam, sou obrigada a ficar calada. Na mesa do Cheldon, tem uma máquina estranha, feita de rolos de papel higiêncio, canos enferrujados e uma tampa de vaso sanitário. Não ouso perguntar o nome, já que tenho medo da resposta.
   Mais a frente, na mesa da Gretchen, uma engenhoca de sacos plásticos e garrafas pet está esparramada em um pano marrom. Ouço ela dizendo que aquilo recicla papéis. Mas acreditar de verdade eu não consigo.
   Em uma das últimas mesas está Kleber, um gênio da física que constroi as melhores coisas para a Feira de Inventores. Sua mesa está forrada com um pano esverdeado meio amarrotado, parece um lençol velho. Em cima, sua máquina, dessa vez feita de uma televisão velha, uma máquina de xerox, um teclado velho, uma impressora e duas caixas de som médias. 
- Ei, Brigitte. - ouço ele me chamar - Vem dar uma olhada nisso aqui. 
- Ah, oi Kleber. - sorrio em resposta, me aproximando dele. - E então, o que está aprontando? 
- Essa é a maior invenção do século! - ele elogia a si próprio, enquanto digita sem parar no teclado. 
- Que legal. - falo, tentando me entusiasmar com a ideia. - E o que é mesmo?
- Se chama Máquina do amor Perfeito. - explica, apertando dois botões da máquina de xerox. - E, você será a primeira pessoa a usá-la! 
- Mas, eu não... 
- Sem desculpa, Brig. Já está dentro. 
    Kleber me puxa pelo braço, me colocando em frente à televisão, que está em branco, enquanto listras acinzentadas passam. Ela parece esperar uma fita de vídeo, ou algo parecido.
- Agora, segure isso aqui. - fala, me entregando uma revista Capricho. - Sei que ama esses caras. E precisa de inspiração. - Kleber ajeita os óculos e se senta na cadeira azul que está atrás da mesa. - Agora, vou lhe fazer perguntas simples e você vai me respondendo, certo? 
- Tudo bem. - concordo, nervosa. 
- Vou criar para você, sua alma gêmea. Pra isso, preciso saber como ela seria. Então... Idade?
- 17 anos. 
- Cor dos olhos?
- Azuis. - digo, sem ao menos folhear a revista. - Tipo os do Logan Lerman, sabe? 
- Urrum... - murmura, ainda digitando - Altura?
- Um e oitenta e cinco - escolho, olhando o Robert Pattinson na capa. 
- Cabelo?
- Encaracolado, preto e curto. - peço, sorrindo com a ideia de ter minha alma gêmea. 
- Certo... - ele diz, ajustando os botões do áudio. - Voz?
- Grossa e meio rouca, mas com um tom meio musical. E por favor, que não seja esganiçada!
- Prometo. - ele sorri, tirando os óculos para limpar. - O que mais poderemos colocar? Que tal, boca?
- Carnuda, mas não do tipo que é maior que cara, e sim do tipo "Meu Deus!". Entende?
- Com certeza. Nariz?
- Não muito fino, mas não quero adunco, tá? 
- Tudo bem. Musculoso, magrelo...?
- Algo entre esses dois. Não quero um fracote, mas também não quero um King Kong.
- Perfeito. - exclama, dando um ultimo toque na tecla Enter. - Agora faremos um pequeno teste de personalidade. Só pra definir a melhor personalidade pra ele, tá certo?
- Arrã. 
- Vou te dar três opções de cada vez e você vai escolhendo uma, tá?
- Sim. 
- Inteligente, despreocupado ou mediocre?
- Inteligente.
- Amoroso, adorável ou fofo?
- Não dá tudo no mesmo? - pergunto. Ele balança a cabeça, negando - Tá... Hmm... Amoroso.
- E por último o sorriso: meigo, malicioso ou divertido?
- Meigo. 
     Um barulho de ronco e a impressora começa a imprimir os resultados. Kleber me explica que eu preciso ver uma foto e uma descrição para aprovar o resultado. Pois uma vez que a máquina de xerox o reproduza, é sem volta. 
    Pego os papéis e dou uma olhada. O garoto que eles mostram é bem bonito. Entrego-os de volta à Kleber, que depois de ter minha confirmação, coloca as folhas na máquina de xerox e espera que as imagens sejam reproduzidas na tela, para que ele controle o processo de criação. Enquanto digita os últimos padrões e ajusta audição e visão, eu assisto a tudo, curiosa. 
   Depois de trinta minutos um adolescente perfeito é reproduzido na minha frente. Kleber o define como um holograma materializado. Toco em seu rosto. Sua pele é macia como cetim.
- Sou seu novo namorado. - sua voz grossa e meio rouca fala. - Mas antes, preciso que programe meu nome. 
- Você vai se chamar... Nathaniel. - decido, pensando em um cantor que eu adoro. 
   Kleber programa o nome no cérebro do meu namorado perfeito, que ainda está ligado às maquinas por um fio roxo. Um estalo na máquina e um soluço de Nathaniel e por fim, está tudo pronto. 
- Sua alma gêmea está entregue, Brig. 
- Obrigada. - falo, sorrindo - Acho que vou dar uma volta com ele. 
- Sinta-se à vontade. Eu não tenho prazo de validade. - brinca Nat, sorrindo para mim. 
   Meu coração dispara ao som daquela voz. É uma mistura de todas que ouvi durante toda a minha vida. Meu estômago também embrulha e se enche de borboletas. Não encontro palavras para agradecer à Kleber, mas acho que ele sabe o quanto me sinto grata. 
   Meu holograma materializado não é a definição de perfeição. Ele é apenas uma mistura de todas as minhas lembranças boas, é o meu conceito de perfeição. E esse, nunca vai mudar. 
   Porque eu amo a mim mesma. E agora, amo Nathaniel.

3 comentários:

Talitha disse...

Hum... adorei
Imagina poder criar a sua alma gêmea, juntando todas as coisas que você mais gosta.
Nossa seria um sonho bom, de se ter.
Incrível.
Kiss...

♥ Garota ♥ disse...

*-*

●๋• тнαi иαรciмєитσ disse...

Gostei da pauta e da forma como escreves. Na verdade, essa foi a pauta para o Bk que mais me agradou até agora. Boa sorte pra vc!

Seguindo*