29 de junho de 2010

Perigosamente ao seu lado - Parte IX




Doía e muito. Segurei meu braço esquerdo com os dedos nervosos e fiquei de pé. A figura inabalável dela me encarava, com um sorriso descarado. Caminhei devagar, medindo esforços e palavras, evitando minha morte. 
   - O que quer de mim? 
   - Já ouviu falar que um anjo se rendeu ao inferno?
   - O que quer de mim? - repeti, entredentes. 
   - Harold já se rendeu. Mas seu melhor amigo o convenceu a voltar. Por mim, ele ainda estaria ao meu lado, casado comigo. - seu indicador cerrou meus lábios. - Ah, garotinha ingênua. Ele é muito mais experiente que você. 
   - Só tem 18 anos. - observei, arfando. 
   - E daí? 
   Ignorei a pergunta - já que era bem retórica -, e recolhi minha harpa do chão. Desamassei a túnica branca que agora eu vestia e conferi se minha temporária aureola continuava lá. Sim., estava tudo certo. Exceto por uma coisa. 
   - Sua calcinha de ursinho é uma gracinha. - debochou. 
   - Que por.. caria! - passei as mãos por minhas costas, encontrando um rasgo de vinte centímetros, se estendendo de minha cintura ao meu bumbum. - Você pode acabar com meu braço, quebrar meus dentes, destruir meu cabelo, mas rasgar a minha roupa?!! Aí é demais! 
    Pulei em seus ombros e lancei uma sequência de murros em seu rosto, detendo sua arma com meus pés. Só ouvia gemidos, mais de raiva do que de dor. Bem feito!, pensei
   - Sua idiota! - berrou ela por fim. - Me largue, imbecil! 
   - Nunca rasgue uma roupa minha! - eu disse, recolocando a harpa em meu cinto. 
    Olhei para mim mesma vestida de anjo. Nunca fiz o estilo certinha, sempre fui mais a garota do cabelo cheio de mexas e unhas com esmalte preto descascado. Mas tinha que admitir, até que eu ficava bonita.  
    E então, encarei a mulher toda quebrada à minha frente. O cabelo embaraçado, alguns dentes quebrados e o olho já meio troncho. Nunca soube que minha mão tinha todo esse poder. 
    E então, me lembrei do saquinho. Puxei-o de meu bolso e desamarrei o laço marrom e vermelho. Um pó dourado, parecido com o da Sininho, estava lá dentro. 
    Ergui o saco e joguei o pó pelo ar, que empurrou-o em duas direções diferentes, espalhando por todo o campo. 
    Tudo apagou. 
                                        
                                                    -               -                -

- Bom dia, dorminhoca. - Yara sorriu, com uma xícara de café nas mãos.
   - Hmm... - me espreguicei. - Que horas são? 
   - Dez e meia.
   Joguei os pés para fora da cama e levantei. O dia estava ensolarado e as cortinas já todas abertas. A bagunça continuava a mesma de sempre. Tropecei em tudo, me jogando no sofá. 
   - Ai! 
   - O quê?
   - Uma agulha espetou meu bumbum. - expliquei, tirando a agulha de lá. 
   - Tenho que te avisar. Hoje à noite, vai chegar um novo hospede. 
   - Sério?... 
   - Seríssimo. 
   - E qual o nome dele? 
   - Harold. 
   Meu estômago começou a embrulhar e eu vomitei.

Um comentário:

Talitha disse...

NOSSA QUE LOUCURA.
Adorei aquela parte que ela pula no pescoço da mulher, bem feito pra ela apanhou legal. Nossa que loucura hein ela estava dormindo, não é a toa que ela vomitou né, só de pensar em tudo aquilo novamente...
Kiss...