23 de junho de 2010

Perigosamente ao seu lado - Parte VII


"O amor é a força mais abstrata, e também a mais potente que há no mundo." - Mahatma Gandhi


- Não abra a janela! - ordenou, apertando o botão do ar-condicionado. - Isso aqui vai ajudar.
- Tô com medo, Har... - um calafrio percorreu minha espinha. - Talvez haja outra saída.
- Não há, Anne. - seus olhos buscaram os meus - Eu queria que houvesse, mesmo...
- Cansei de aventuras.
     Finas gotas respingaram na janela de vidro fumê. Pude ver o reflexo cansado dele, suas mãos pousadas no volante e seus olhos fixos na estrada. Eu sentia muito, por mim, por ele, e por todos os outros que também passavam por isso.  
     Sentia muito pelo mundo. 
     Algumas vezes na vida, sua coragem é posta à prova. A minha era pouca, muito pouca. Minhas pernas tremiam, meu coração disparava e minhas mãos suavam sem parar. Nunca pensei em guerrear com alguém. Principalmente com quem não posso ver nem tocar. 
     Ou atingir. 
- Fico me perguntando agora... - murmurei, dedilhando o vidro embaçado - Como faremos isso dar certo...
- Se um dia souber a resposta, me conte. 
- Vamos lutar às cegas, usando de armas que desconhecemos? 
- Exatamente. 
- Retiro o que eu disse. Estou apavorada.
     Um som incomum encheu meus ouvidos. Era musical e leve. Um riso que se transformou aos poucos em gargalhada. Em pouco tempo, éramos dois panacas rindo num carro roubado. Rir das próprias desgraças às vezes ajuda. Pelo menos em nosso caso. 
- Não sei o que faria sem você. - sussurrou segurando minha mão
- Voltaria para o Céu. - respondi, engasgada - Caia na real, Harold, você ficaria bem sem mim. 
- Acha mesmo que não temos sofrimento no Céu? Não sofremos por dor, mas por amor, sim. 
- Deixa de dar uma de romântico. Não cola comigo. 
- Tuuuudo bem. - brincou, acariciando meus dedos. 
     Um último pedágio faltava ser pago. Retirei a carteira da bolsa vinho e passei-lhe cinco reais. Harold baixou o vidro e entregou à mulher, que atendia - segundo seu crachá, por Felícia.
     Fiquei observando enquanto os olhos dela passavam do azul claro ao vermelho-sangue. 
     E, com um tridente surgindo em suas mãos, ela disse:
- Bem-vindos ao jogo.  
   

Um comentário:

Talitha disse...

Ai que suspense.
Amando ♥.♥
Kiss...