15 de julho de 2010

Alone

    
     Há momentos da vida, que nunca devem ser lembrados. São instantes de dor, sofrimento e lágrimas. O mais impressionante é que poucos segundos conseguem deixar cicatrizes profundas. Marcas que curativos não curam e cirurgias plásticas não consertam. Marcas que não desfiguram o rosto, o corpo, mas destroem para sempre a alma.
    Eu queria de verdade dizer que não tenho momentos assim. E provavelmente eu não teria se não tivesse sido curiosa e invadido os arquivos de minha memória em uma sessão de hipnose. Porém, depois que aquele homem de branco me colocou em transe e me fez revirar meu passado, revivi um dia que eu não sabia ter existido. 
    Morávamos na Walt Street 37, numa casinha modesta. Eu devia ter um ano na época. Mamãe me embalava no colo, ajeitando volta e meia meu chapéu rosa e branco. Nevava bastante e eu me encantava com os flocos caindo do céu. Se tivesse crescido lá, provavelmente adoraria senti-los em minha língua, derretendo pouco a pouco. 
    Mas, naquela noite de inverno, mamãe me fez olhá-la nos olhos e escutá-la. Sua voz estava tensa e seus olhos apreensivos. Lembro-me de achá-la linda, uma rainha. Deve ser também porque ela me chamava de sua princesinha.
    - Sabe, princesinha... - ela começou, sorrindo - Eu cometi muitos erros na minha vida. Eu admito, afinal, nem sei quem é o seu pai... - corou levemente, agora com lágrimas nos olhos - Mas, eu não vou mais viver como alguém que só espera um novo amor. Cansei de procurar príncipes encantados que vão querer a você e a mim. Não aguento mais isso... Por isso, vou deixar a casa de papai essa noite. Mas... - hesitou - Você não vai comigo. Sei que não pode me entender, e por isso, vou apenas lhe dizer o que farei. - engoliu em seco - Vou vender você. 
    E aí morreu o assunto e minhas lembranças. 
    E então, foi como outro flashback. Eu estava em uma escadaria de um convento. Minha mãe ainda estava comigo, conversando com um homem. Ela estava claramente bêbada e drogada. 
    Bruscamente pegou o cesto onde eu estava e deu ao homem, que sorriu para mim com dentes amarelados. A última coisa que vi, foi um pacote de cigarros na mão da minha mãe e ela acenando para mim. 
    Há lembranças minhas que merecem morrer, outras precisam morrer, e ainda tem as que fazem eu querer me matar. 
    Essa foi uma delas. 

    Um bipe soou em algum lugar. Meu olhos abriram, embaçados atrás dos cílios. E eu acordei na minha cama de metal, coberta com o lençol branco, na ala psiquiátrica, lugar onde moro desde que descobri que minha mãe me trocou por um maço de cigarros...

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3 comentários:

Italo Stauffenberg disse...

Interessante o rumo em que vc levou o texto.

Ficou muito bom.

Parabéns.

Bjos.

Thais Cristina, disse...

Nossa, muito triste. E pensar que muitas histórias por aí se igualam, senão piores do que essa.
De qualquer modo, sua sutileza ao descrever a cena me impressionou.
Muito bom o texto!

Beijos.

Naty Araújo disse...

Adorei a história... e jamais teria chegado com um fim desse oO

Mto, mto bom memso.. Beijão