7 de agosto de 2010

Sentimentos que nunca morrem


     As malas abarrotadas estavam encostadas na parede pálida do aeroporto. Sentada a seu lado, Dona Henrietta enrugava a testa, lutando para descobrir o que era check-in. Na época dela, as palavras estrangeiras não eram tão comuns. Ôxa, pensou, Que pinóia! 
     Henrietta levantou-se com cuidado e desamassou a saia de pano que vestia. Ainda resmungando mentalmente, recolheu as malas e caminhou com passos miúdos , parando ao lado de um senhor que descansava, com os cotovelos pontudos fincados no balcão da cafeteria. Ele falava com a garçonete, sua voz era doce e calculada, quase uma melodia. Ele tecia elogios ao belo cabelo loiro da moça. 
      - Pode me arrumar um café? - perguntou Henrietta, tímida. 
      - Claro. - a loira respondeu, sumindo no fundo do estabelecimento. O senhor se remexeu na cadeira, parecendo irritado. Se foi por causa da moça, a irritação pouco durou, pois ela logo apareceu, trazendo uma xícara fumegante nas mãos. - Aqui está, senhora. 
      - Henrietta. - corrigiu, sorrindo. 
      - O que deseja? - perguntou a moça, se dirigindo a um cliente que acabara de entrar. 
     Vendo que perdera a ouvinte, o velho recolheu as malas que descansavam a seus pés e saiu pela porta da cafeteria, com a expressão carrancuda. Henrietta acompanhou-o com os olhos até que sumisse nas portas de vidro da loja de presentes. Foi então que percebeu que seus dedos queimavam, pregados na xícara muito quente. Retirou-os rapidamente e voltou a mergulhar em pensamentos. 
     Metade deles era interrompida pelo rosto daquele senhor. 
     E a outra metade, era sobre ele. 
     Sem conseguir encontrar uma razão para aquele interesse repentino, a velhinha engoliu o café - sem se importar quando queimou a língua - e saiu apressada, se lembrando do voo que partiria dali a quarenta e cinco minutos. Queria chegar ao avião com tempo.
     Acabou encontrando uma funcionária que guiou-a até o check-in. Um homem jovem estava atrás do balcão. Ele foi simpático durante o atendimento, mas ao mesmo tempo distante e profissional, fazendo dos agradecimentos daquela velhinha um nada enorme.
     - Sente-se ali - ele apontou um grupo de cadeiras vermelhas - e espere. Seu voo logo será chamado. 
     - Agradecida. - ela disse, num sussurro.
     Henrietta passou pouco mais de quinze minutos esperando. 
     Quando seu voo foi chamado, ela recolheu as malas do chão e caminhou para a porta de vidro automática. Pensando mais uma vez naquele senhor, sorriu para o chão cinza e deu adeus à lembrança. Relutante, mas deu. Porque, no fundo, sabia que era tudo o que podia fazer.
    Em uma explosão intuitiva, acabou compreendendo o que aquele interesse repentino significava. Um frio lhe percorreu a espinha e seu coração acelerou. Dona Henrietta tentava entender como alguns sentimentos nunca morrem. 
    Mal sabe ela que alguns sentimentos não podem morrer.
    Corando, a velhinha se perguntou o que a neta de quinze anos acharia se descobrisse que sua avó de oitenta e dois estava apaixonada.
    É... sorte que os sentimentos ainda não falam. 

Notas da autora: essa história me perturbou a mente a semana inteira, mas só consegui escrevê-la hoje. O pior, é que no fim, acho que ficou meio chata... :( 

Ao som de Unwritten - Natasha Bedingfield


2 comentários:

Naty Araújo disse...

Nooooooooooooossa, que linda, linda mesmo...

Dá uma vontade de chorar com histórias assim... principalmente com as imagens.

Meio chata nada... eu adorei, adorei mesmo.

Beijos

Italo Stauffenberg disse...

Hum...

Ainda não perdi meu pai e nem sei como seria perdê-lo apesar de ser ausente. Mas pai é pai não?

Abraços