7 de setembro de 2010

Outside

3° Lugar - Bloínquês (Edição Visual)

    Ela sempre quis ver pela terceira pessoa. Admirar de longe, sem participar. Como a plateia no teatro, o espectador no espetáculo, o pintor com sua tela. Mas suas esperanças pareciam meio inúteis. No fim ela sempre terminava do lado de dentro. Sempre era obrigada a sentir o que os outros sentiam, agir como os outros queriam. E ela mesma ficava para depois. 
    Só que tudo o que se repete, um dia cansa. E ser coagida perdeu a graça.
    Por isso, naquela manhã, Julie tomou o caminho contrário ao que a levaria à escola, virando duas esquerdas antes da sua esquerda de costume. Não sabia bem para onde ia. Sei lá. Talvez qualquer lugar, menos a escola. Era rotina demais, repetitivo demais.
    Acabou no jardim comunitário do bairro. 
    Como era início de primavera, o chão estava infestado de flores de todas as cores e tamanhos. Julie largou a mochila no primeiro banco que viu e correu para se aninhar entre elas. Ela sempre alimentou uma paixão secreta pela primavera. Todas aquelas cores sempre deixaram a garota encantada, não importava quantos anos tivesse: dois ou doze . 
    Julie arrancou uma flor do chão e começou a analisar cada centímetro dela. Nunca tinha percebido como uma simples flor podia deixá-la tão feliz, esperançosa. Esperanças sempre lhe pareceram bestas, infantis. Mas ali, sentada naquele jardim, todas elas pareciam fazer um enorme sentido, se encaixar uma na outra - assim como todas as plantas se encaixam na natureza. 
    E se meus sonhos forem reais?, pensou ela, sorrindo consigo mesma. Talvez nem todas suas fantasias de garota, com fadas e príncipes fossem tão bobas. Talvez existissem mesmo sonhos que acontecem, que não terminam ao abrirmos os olhos.
    - Já chega, Julie - brigou consigo mesma - A primavera tá te deixando piradinha.
    Sem olhar para trás, Julie recolheu a mochila e saiu correndo, ansiosa por fugir dali. Parecia que agora que pudera ver o desabrochar da natureza de perto, o amor platônico que alimentava se tornara real demais. Íntimo demais. E isso a assustava.
    Porque ainda era estranho para ela não ser atriz. Era estranho estar na plateia pela primeira vez.


"On the outside looking in
I've been a lot of lonely places
I've never been on the outside"
- The outside - Taylor Swift -

Um comentário:

Jússia Carvalho disse...

"Era estranho estar na plateia pela primeira vez". Essa frase tem mais significado que possas imaginar. Adorei!

Acho que é o sonho de qualquer pessoa ver em terceira pessoa. Ser narradora onipresente na própria história, assim seria mais fácil, mas a vida perderia o gostinho de fantasia e aventura. Perderia a graça de reinventar todos os dias.
:D