15 de outubro de 2010

Não mais que o clichê

    Eu sempre vi minha vida como um filme. 
    Sei lá, talvez por ser tão fora do padrão a ponto de se tornar ridícula. Não, não é nada do que vocês possam estar imaginando. Nunca me casei com vampiros, não me apaixonei por lobos. Na verdade, sangue nunca foi a minha praia. Talvez por ter completado seis anos no dia que minha primeira mãe foi assassinada. 
    Pelo meu pai biológico. 
    Depois que meu pai fugiu para ninguém-sabe-onde e minha mãe foi enterrada no cemitério da família - mórbido, eu sei -, eu fui morar em um lar carente, chamado Nanny's House. Eles eram legais comigo, me davam amor, o que não tinha conseguido até ali. Ninguém da família me quis, e até entendo por quê. A família da minha mãe a veria em mim, e a do meu pai, bem, estava ajudando-o a fugir e não queria ser exposta. Além disso, eu não queria morar com eles. 
    Quando completei oito anos, fui adotada. 
    Confesso que de inicio, meu pai me assustou. Tinha mais de um metro e oitenta, era um verdadeiro armário. Mas, mesmo com traços exageradamente fortes e mãos que mais pareciam raquetes de tênis, ele era bonito. E - desculpe-me se soar estranho - tinha pés delicados. Pés que me lembravam os da minha mãe. 
    Fui embora com ele sem hesitar. Era como ter a chance de viver de novo, longe de todo o horror.
    Tal não foi a minha surpresa ao chegar na minha nova casa e encontrar outro homem na cama do meu pai. Meu Deus, ele era gay! Por isso os pés delicados, sem uma rachadura, com as unhas feitas e tudo. De inicio, não me importei muito. Eu só queria amor, não perfeição. 
    Mas tudo começou a pesar quando eu voltei para a escola. Ninguém entendia minha família. 
    Até hoje eu costumo dizer que o preconceito é uma praga. Uma praga que se alastra por qualquer plantação. Eu nunca deixei que se alastrasse pela minha, porque aprendi que é errado julgar os outros. Aprendi isso com meus dois pais. 
    E, naquele dia, 15 de outubro, eu olhava para a foto que tirei pouco depois de chegar aqui, com um sapato de salto que achei no fundo do armário dos meus pais. Eles não os usavam, mas tinham uma paixão louca por sapatos de salto. E, excentricidades a parte, eu pedi para experimentar. Meu pai - o Ruffus, não o Coddy - tirou uma foto e a guardou. Ele me disse:
    - Um dia esse sapato vai servir em você. E quando isso acontecer, você vai olhar para essa foto e rir do tempo em que seus pés mal entravam nesse salto. 
    Depois disso, ele me abraçou. 
    Foi ali que soube que meu pai me amava de verdade. Sem regras, sem exceções. Eu pude descobrir que o amor existe, que nem todos os pais matariam minhas mães. Nem todos os pais matariam meus sentimentos sem o menor remorso. 
    Bem, talvez minha vida seja ridiculamente especial de uma forma que eu adoro. Ou talvez, não passe de um baita clichê. Seja como for, eu a amo como ela é. E nada, nada mais no mundo, pode tirar esse sentimento de mim.
    Porque, convenhamos, o clichê muitas vezes é bem melhor que o diferente. 

         "All of our memories so close to me
Just fade away..."
 
- My Happy ending - Avril Lavigne -


Notas da autora
Pauta para o Palavras Mil 
Foto do site 2Photo 
Outro link, aqui

4 comentários:

Thais Cristina, disse...

lindo *-* sem mais o que falar
#eolhaqueissoédifícil :)

A escritora sofrida disse...

ameii! lindo!

Bruuh Fevers disse...

Achei seu texto muito legal!!E eu leio muitos textos por dia,e o seu me chamou a atenção!!

bjos
http://imodelblog.blogspot.com/

DILERMArtins disse...

Mas bah, guria.
Gostei! Não aficou presa na foto e contou uma história diferente, mas com grande possibilidade de acontecer...
Parabéns.