17 de outubro de 2010

Send It On - Parte VIII


    Já estávamos entrando no avião quando o celular tocou de novo.
    Era minha mãe, avisando que tinha conseguido um lugar para nós dormirmos naquela noite - não queria que alugássemos nenhum de nossos parentes. O hotel chamava Sant Crusoé. Nossos quartos eram o 107 e o 108, no terceiro andar. Jared torceu o lábios, reclamando por serem dois quarto e não um. Mas meu pai tinha suas restrições quanto aos meus namoros. E não era minha mãe quem iria discutir com ele. 
     O vôo foi tranquilo, tirando o ronco irritante do velho à nossa frente e os espirros nojentos do pirralho atrás de nós. O tempo todo Jared segurava minha mão, evitando que eu tremesse mais do que minha preocupação permitia. 
     Chegamos ao Rio com vantagem, já que um táxi esperava por nós na porta. Dentro dele estava meu tio avô que eu nunca tinha visto pessoalmente, só por fotos. Ele nos abraçou rapidamente e nos puxou para dentro, mandando o taxista correr o mais depressa possível. 
     Era hora de botar o plano em ação. 
     Peguei o celular da bolsa e cliquei no segundo número da minha discagem rápida. 
     - Alô? - a voz trôpega respondeu. 
     - Sou eu, Ian. Estou aqui, no Rio. Onde encontro você?
     - No Norte Shopping. Vou te esperar na entrada do estacionamento.
     - Tá. 
     Desligamos.
     Falei para meu tio aonde ia. Paramos na casa dele, deixamos as malas e continuamos o caminho no carro dele. Meu Deus, ele corria como louco! Voamos pelas ruas como se só nós estivessemos por lá. Chegamos com uns quinze minutos poupados pela correria desenfreada. 
     E, pela primeira vez, eu o vi. 
     Um Ian de carne e osso me esperava na entrada. Tinha uma aparência péssima, mas era bonito. Cabelos castanhos, olhos negros, lábios de meia lua. Moreno, alto. Era exatamente como imaginei, só que mais bêbado e afetado. 
      - Oi, Ian. - falei, sorrindo. - Queria me ver? 
      - Sim, muito. - respondeu, rindo. Ele me abraçou forte e olhou para mim - Como você é linda... Minha morena. Desculpe-me pelas ameaças, mas eu precisava te ver. Porque eu preciso te dizer que... 
     Não continuou. 
     - Dizer...? 
     - Meu Deus, eu te amo, Yasmin! - berrou. Quem passava por ali olhou e aplaudiu. 
     Depois disso, Ian me agarrou. Prendeu-me junto ao seu corpo e beijou minha boca como se ela fosse o último copo d'água da Terra. Meu corpo amoleceu. Fiquei fraca e ofegante. 
     - O que...? - consegui perguntar. 
     - Diga que me ama. 
     Mas ele não me deixou responder. 
     Abraçou meu corpo mole e voltou a me beijar, pressionando seus lábios frios contra o meu pescoço, meus ombros, meu queixo, minha testa. Por um momento, me senti fraca, inútil. Como explicar a ele que não o queria mais? 
     Que meus sentimentos tinham me enganado?
     - Ian... - comecei. - Eu, eu te amei, muito. Mas... algo dentro de mim mudou. Eu confundi tudo. O amor que eu sentia por você não é esse tipo de amor. Esse tipo de amor eu sinto pelo seu primo... Nós namoramos, terminamos, mas eu ainda o amo, Ian... 
     - Como?! 
     - Me desculpe. Eu sinto muito. 
     - Foi bom te ver. 
   Ele falou. Depois saiu sem mais explicações. Deu as costas e foi embora. Aos poucos, o público se desfez, cada um voltou para o que fazia. Respirei fundo, absorvendo todo o ar que podia. O peso era menor agora. Eu já tinha esclarecido as coisas. 
   Fui de encontro a Jared. Mas, onde ele estava?
   Olhei para o meu tio. Ele apenas deu de ombros e apontou para trás. Jared estava dentro do carro, dando a partida e saindo de ré. Duas lágrimas escorriam, uma de cada olho. 
    Antes de ele sair, pude ler algumas palavras em seus lábios. Com um sorriso triste, ele sussurrou:
    - Eu te amo. 
    E sumiu no fim da rua.

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