9 de outubro de 2010

Sentimentos que nunca morrem - Parte 3 (e última)

Partes I e II

    A madrugada chegou mais cedo do que todos queriam. 
    Adolfo foi o primeiro a protestar, batendo a caneca na mesa e rindo. Ele tinha bebido além da conta, assim como meu pai, minha tia e minha avó. Sim, dona Henrietta estava mais do que chapada. Pelas minhas contas, somando tudo, tinham tomado por volta de quinze latas de cerveja cada um. O quintal inteiro cheirava a cigarro e bebida.
     Meu Deus, que loucura era aquela?
     Olhei para Etan. Meu primo mordia os lábios, o rosto alternando entre o pálido e o rubro. Etan nunca foi de expressar emoções, sempre engolia os próprios sentimentos e os revelava para alguém de confiança. Em geral, esse alguém era eu. Crescemos juntos, rindo das mesmas piadas, zoando as mesmas pessoas, dividindo os amigos. 
     E agora, compartilhando da mesma vergonha.
     - Acho que já chega para vocês. - me intrometi, como um último gesto de desespero. - Já está na hora de parar, tá? 
     - Deixa de ser chata! - berrou meu pai, enrolando a língua. 
     - A gente tá bem, querida. - concordou minha tia. 
     Suspirei, tirando as latinhas vazias da mesa. Joguei-as no latão e voltei a me sentar na escada. 
     Quando vovó resolveu sair, não imaginei que fosse com um cara que curte "altas festas". Isso estava enjoado até para mim que sou adolescente. Eu sabia que dali até o fim da noite as conversas só envolveriam "O idiota", "O rídiculo", "A cretina" e "Mais cerveja". Era assim todas as vezes que meu pai e minha tia estavam no meio. Os dois pombinhos não fariam diferença alguma, até porque eles pareciam estar adorando. 
      Eu poderia continuar citando os micos, mas prefiro ir a parte que interessa. 
      Por volta das quatro da madrugada, os quatro se separaram. Minha tia foi discutir futebol com meu pai e minha vó e Adolfo foram caminhar para aliviar a sensação adiantada de ressaca. Eu os segui, ajudado por Etan - meu amigo para as confusões. E foi então que eu vi... 
      Dona Henrietta sorria, os olhos brilhando de animação. Adolfo puxou-a pela cintura e ergueu seu corpo na altura do próprio rosto. A iniciativa de aproxima os lábios partiu dela. Em pouco, já estavam se agarrando como dois adolescentes loucos. Não de forma vulgar, claro. De uma forma simples, bonita e verdadeira. A felicidade infantil unida à maturidade adulta.   
      - Não acredito, vovó... - disse Etan, arregalando os olhos. E se virando para mim: - Você sabia disso?
      - Arrã. 
      - Nem pra me contar, né, prima?
      - Ah, você sabe... 
      - É. Eu devia ter percebido antes que vovó estava apaixonada. - sorriu - Ela andava felizinha demais. 
      - É, Etan. - suspirei - Assim se tira uma lição de tudo isso...
      - Qual é?
      - Não importa o quanto tentem matá-lo...
      E, sorrindo para minha avó, completei:
      - O amor nunca morre. 

 FIM 

6 comentários:

@juusep disse...

O amor verdadeiro dura anos, séculos, milênios... Dura o tempo necessário para se tornar verdadeiro.

Kobayashi disse...

Uma avó tomando 15 latinhas?! tem algo errado ai u.u

zuera..voltando a parte seria..Muito bom o texto mesmo não acreditando tanto assim em amor e talz..mas vale a pena escrever sobre o que acredita.

Ficou bom mesmo, to seguindo aqui.

abraço

Carolina Costa disse...

Li as três partes e adorei. E é verdade... por mais que você tente matá-lo, o amor verdadeiro nunca morre.

Italo Stauffenberg disse...

er, o amor verdadeiro nunca acaba!

linda história!

abraço.

Nina Auras disse...

Quando é verdadeiro, nunca morre mesmo. Lindo aqui ♥

Gêsa disse...

Amor é uma coisa tão inexplicável que no fundo eu ainda não tenho certeza se ele pose ou não chegar ao fim.