14 de outubro de 2010

Don't Cry Tonight

 2 ° Lugar - Bloínquês (Edição Visual) 

    Tudo girava em cores brilhantes. 
    Verde, vermelho, rosa, azul, amarelo. Talvez roxo, eu não sabia bem. Estava difícil distinguir em meio à nuvem de êxtase momentâneo. Quanto mais aquilo duraria? Drogada! , ouvi uma vozinha berrar na minha cabeça. Percebe a merda que você fez?
     Suspirei, balançando a cabeça. Era só o que me faltava. Ouvir vozes. 
     Meus olhos continuavam fechados, ardiam demais para abrir. Esfreguei as mãos no rosto, em uma última tentativa de despertar. Sinceramente, quando me piquei, não imaginei que me sentiria esse lixo depois. Viu, idiota?, a vozinha repetiu. 
     - Garota? - uma voz rouca me chamou. - Acordou?
     - É Nikki. - rosnei - E sim. Acho que sim. 
     A voz rouca riu. 
     A porta rangeu e alguém entrou. Pisquei, tentando ver. Um homem, de uns vinte, vinte e um anos, me encarava. Senti um vento frio no meu corpo, desde a perna até o ombro. Depois, a água. Eu realmente estava debaixo d'água? 
     Que tipo de piada era essa? 
     - Quer uma toalha, Nikki? - ele perguntou. 
     - Sim... - murmurei, envergonhada. Eu estava nua e chapada na banheira de um estranho. Realmente não era meu melhor dia. - Obrigada. 
     Enrolei-me na toalha. 
     Foi então que dei por falta de algo. Cadê minhas sandálias?
     - Peraí... All Star? 
     - Você só tem dezesseis anos. Aquele sapato grotesco não combinava com você. 
     Bufei, saindo do banheiro. Tudo bem, eu sei que meu estado era deplorável, que eu estava me vendendo fácil e que eu era viciada. Já tinha aceitado isso. Mas quem era ele para me julgar? Ele não sabia nada de mim. Não sabia por que eu trabalhava nas ruas, não sabia por que me submetia a isso. Não sabia nada! 
     - Não venha me julgar... - qual era o nome dele mesmo?
     - Richard. - respondeu, lendo meus pensamentos. 
     - Isso. - mordi o lábio - E quem é você mesmo?
     - Sou seu príncipe encantado. - debochou.
     - Como se já não tivesse ouvido essa antes!
     Ele me ignorou.
     - Te encontrei chapada na rua, sozinha. - hesitou - Escuta, eu conheço seu trabalho, sei como é difícil se vender por qualquer trocado. Sei como é duro viver nas ruas, à mercê de qualquer cafetão. Sei de tudo isso. Mas, por que você se drogou?
     - A verdade dói menos quando se está fora da realidade. 
     Ele não respondeu. 
     O apartamento parecia vazio, então não me importei de ser vista. Além disso, acho que já estava acostumada à exposição, afinal, era prostituta. Ele me guiou até o quarto e me emprestou um blusão e um par de meias.
     Ser tratada com tanto carinho era estranho para mim.
     - Quer ver televisão? - perguntou, deitando na cama. 
     - Seria bom. - sorri, me deitando ao lado dele. 
     A proximidade o deixou desconfortável. 
     - Desculpe. 
     - Deixa para lá. - respondi. 
     Não sei quanto tempo fiquei acordada. Sei que lá pelas tantas meus olhos começaram a arder novamente e, enquanto Richard enrolava meus cabelos em seus dedos, eu caí no sono. Um sono sem pesadelos. 
     E, pelo menos por uma noite, eu pude ser feliz.

"Do you rather like to feel what is my life
If you 're really going to listen,

Baby, at my fantasy..."
- Don't Cry Tonight - Savage -




Notas da autora
Eu li o livro DESAPARECIDO PARA SEMPRE, do Harlan Coben e nele, cita-se uma organização chamada Covenant House, que tira crianças e adolescentes da rua por um periodo de tempo e lhes dá alimento, amor e paz. Só de saber que essa organização existe, me sinto melhor. Escrevi essa história com uma vontade enorme de ajudar essas pessoas também. Espero que gostem do que tenho a dizer
(Site da organização, aqui)
:) 

3 comentários:

Radar disse...

Adorei esse final!

Thais Cristina, disse...

Seu texo é lindo *-*
Adorei a forma como descreveu a cena. Parece que estou lá, assistindo, sabe?
Amei, de verdade!

A escritora sofrida disse...

vc eh muiito criativa priima! Adooro!