5 de abril de 2013

Sem-fim de comparações

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Mentira é epidemia
Sem chances de cura
É um vírus de variedades mutantes
Nenhum super-médico segura

Mentira é sopa fria
Depois de horas em cima do fogão
É o arsenal de países beligerantes
É o infarto do miocárdio da nação

Mentira são as trevas do dia
A escuridão que se abate sobre a alma
O desespero do ansioso sem seus calmantes
Desespero que sente ao se esvair sua calma

Mentira é um sem-fim de fantasia
O mundo inventado pelos enganados
Ilusão dos mentirosos delirantes
Que pensam que humanos podem ser manipulados

Mentira é pretensão em demasia
É cessar-fogo, fim de guerra
O último truque da verdade angustiante
Para se manter omissa da Terra

Mas a verdade nunca joga a toalha
Sempre surge no fim da batalha
Sempre tarda, mas jamais
- em hipótese alguma –
Falha 

30 de janeiro de 2013

Física da saudade

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Nas três leis da saudade
Não cabe nenhuma teoria física,
Nenhuma inércia ou força,
Nenhum movimento uniforme

A velocidade do peito é inconstante
Os experimentos são improváveis
Cálculos são impossíveis 
O pensamento não é retilíneo

Circular só é a tristeza
Que roda, roda e se afoga em si
Curvilínea segue a vida
Na incerteza de direção e sentido 

A distância não se mede em metros
Nem tem qualquer comprimento
Distância de quem ama  se mede em tempo
Tempo sem relógios de tic tac

Saudade é quase  escalar
Sem vetor que guie, sem seta que aponte
É um horizonte vazio
No qual se abrigar

Nas leis da saudade 
Não há Newton, não há padrão
Há só quem tem um coração
Lotado de uma recordação
Impossível de se esquecer 

25 de janeiro de 2013

Coleira do amor

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1º lugar - Edição Solte o Verbo, Projeto Bloínquês

. . .

É estranho observar como a palavra ciúme está atrelada a pronomes possessivos. O ciumento, invariavelmente, justifica seu sentimento como medo de que lhe tirem o que (ou quem) é seu. “Ser seu”. Será mesmo que podemos aplicar pronomes possessivos a pessoas? Será mesmo que pessoas conseguem pertencer a alguém assim?
        Imaginemos um cachorro passeando com seu dono. Esse cachorro usa uma coleira para que não fuja e uma placa de identificação para indicar a quem pertence. Seu dono o ama e o cão sabe disso; mas, às vezes, aquela coleira o irrita e ele corre contra ela, mesmo que aquilo machuque seu pescoço. O cachorro sente vontade de ser livre, de correr, de respirar o ar que está mais à frente. Se ele for fiel, vai voltar a seu dono, estando ou não com correia. Seu dono, porém, sente medo de que seu cãozinho o deixe, então continua a prendê-lo toda vez que eles saem para passear na rua.
         É isso que o ciúme é: Uma coleira com placa de identificação. O ciumento é como o dono que teme perder seu animal amado para sempre. A vítima do ciumento é como o cão que sente necessidade de ser livre, de sentir o ar da vida.
         A comparação acima não diz respeito apenas a relacionamentos amorosos. Diz respeito também a ciumentos que não aceitam dividir seu melhor amigo; pais que não conseguem ver seus filhos namorando; filhos que não aceitam que seus pais divorciados namorem outras pessoas; irmãos que superprotegem as irmãs (ou vice-versa)... Infinitos são os exemplos, mas o sentimento de posse é um só. 
         Contudo, sejamos razoáveis. É impossível não sentir ciúme. Afinal, é um sentimento humano, assim como amor, raiva, angústia. Senti-lo faz parte de viver e, inclusive, mostra que aquele objeto (ou aquela pessoa) é importante para nós. A questão, como já de praxe, é a moderação, uma vez que tudo que é demais sobra.
         E, como em um ciclo que se fecha, volto à pergunta: “Será mesmo que pessoas conseguem pertencer a alguém assim?”. Não, não conseguem. Se o próprio cachorro, que é um ser irracional, tenta fugir da coleira por se sentir sufocado, imagine um ser humano, que é perfeitamente racional e capaz de perceber a prisão à qual está sendo submetido? A sensação de liberdade é necessária ao ser humano. Sem ela, sentimo-nos enforcados, presos, “acoleirados”. E, sinceramente, não há amor no mundo que resista a isso.
         Na verdade, tudo se resume a uma frase: "Se você ama alguém, deixe-o livre: se ele voltar, é seu; se não, nunca foi"*.

*Não coloquei o autor da frase por ter encontrado vários autores diferentes para ela e não saber qual é o certo. 

Para o projeto Bloínquês (: 

18 de janeiro de 2013

Meus comprimidos sentimentais

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2º lugar
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Do meu quarto que é ao lado do seu, 18 de janeiro de 2013



 Mamãe,

       Acho graça nessas minhas cartas de gaveta que nunca serão lidas por ninguém, nem mesmo pelos destinatários. Você sabe que eu tenho mania de botar os sentimentos em papéis, uma vez que sou ruim em demonstrá-los. Se bem que você me conhece tanto que eu nem preciso demonstrar muito para você perceber quando as coisas vão bem ou mal, não é? E ultimamente tanta coisa vai mal que eu nem tenho forças para tentar sorrir mais.
    “Nossa, quanto drama para uma adolescente!”, posso ouvir você resmungando enquanto mastiga mais um dos ovinhos de amendoim que você tanto ama. É, muito drama mesmo. Mas é isso que eu sou. Um drama ambulante com um tanque de lágrimas reserva. Agradeça a Deus por eu só recorrer a elas de vez em quando, mamãe, senão já teríamos um segundo oceano Atlântico em formação. Na verdade nem seria tão ruim. Já que Minas não tem mar, seria simpático colocar logo um oceano.
        “Olha o exagero de detalhes! Você sempre estraga seus textos assim, Letícia!”, consigo escutar você me dizendo enquanto revira os olhos. Tudo bem, mamãe, vou parar de enrolar por aqui. É que na verdade eu não sei bem como começar. Sou melhor com cartas de dramalhão, mas esta não é uma delas.
        Vou tentar mesmo assim. Vamos lá... 
       Sabe, nunca fui muito boa com emoções, sempre me embolo com elas e acabo empurrando-as garganta abaixo, como aqueles comprimidos imensos que a gente é obrigado a engolir de vez em quando. Só que eu engulo sem água. 
2348697628_1c73e3127b_z_large       Bom, mas o que eu queria dizer mesmo é que eu te amo. Sei que é imaturo e imbecil da minha parte dizer isso por carta, sem nem um abraço ou um sorriso. Mas, considerando a minha deficiência emocional, isso já é muito. E também queria completar com um “Eu estou aqui”. A frase pode parecer meio perdida, mas você entende bem o que eu quis dizer com isso, não é? Quem melhor do que eu para conhecer todos os nossos problemas?
         Aliás, queria fazer uma pergunta também: Como você consegue engolir, sei lá, uns quinhentos sapos por dia e ainda andar em cima daqueles sapatos de salto sem nem tropeçar? Eu cairia depois do primeiro desaforo. Melhor que isso, faria questão de tirá-los e arremessá-los na cabeça do sem noção que me afrontasse. Mas você não. Você é tão calma, centrada, comedida. Você é tão... sei lá. 
         Acho que essa carta de gaveta já está grande demais para o envelope minúsculo que montei com aqueles papéis que você queria jogar fora. Eu nunca jogo nada fora mesmo. Além disso, o envelope com o adesivo da Betty Boop ficou altamente charmoso, quase tanto quanto minha linda carinha de anjo.
         É isso, dona Sheila. Com todas as brigas, implicâncias e minha mania de te irritar a cada cinco minutos (ok, ok, dois minutos), você é minha mãe, né? Me carregou para lá e para cá por nove meses e duas semanas, então acho que o mínimo que eu te devo é um “Conta comigo”. Para tudo, sempre. 

(P.s.: Eu te amo tanto que até te empresto aquela sandália de plataforma que você tanto ama. E até te dou aquele meu prendedor de cabelo novo. Ficou melhor em você do que em mim mesmo...
P.s.2: Você ainda está me devendo o strogonoff de frango!)

Um abraço de urso bem gigante,
Letícia .

2º lugar
Mais uma vez, texto para  a Edição Cartas do Projeto Bloínquês (:

Delírio (sem) final

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Ela cruzou a linha de raciocínio
Com cinco minutos de vantagem,
Mas perdeu-se da consciência
Que já ia muito à frente
De sua mente divagante

Perdeu-se do pensamento
Às cem jardas de distância
E às duzentas entregou-se
Às mãos da ignorância

A discrepância da corrida 
Dava-se entre o delírio e a lucidez
A menina jogava-se ao vento
E soltava-se à insensatez

Mais uma seringa de largada
E a cocaína deu a partida
Corria de novo a menina
De encontro às suas ilusões

Já na chegada, quase sufocou
Respirou sem sentir qualquer pulmão
Botou as mãos no peito,
Mas não sentiu coração

Seu delírio era verdade
Sua vida era convulsão
E seu corpo, sem sorte,
Já caminhava de encontro à morte

Ela respirou, viu o teto do hospital
As máquinas que apitavam o final
E então subiu ao céu
Perdedora da corrida
E sem troféu 

Nossa, quanto tempo eu não postava um poema aqui... esse é pra Edição Poemas do Projeto Bloínquês                                            

Sinônimo de lembrança é fotografia

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Dezembro de 2012, Nova York


Nunca fui muito amiga das lembranças. Em todos os meus duzentos e tantos poemas, eu nunca falei delas. Também nunca fui muito fã de fotografias. Não gosto de congelar momentos nem de “eternizá-los”. Na verdade, acho que o que me desagrada mesmo é que lembranças e fotografias são sinônimas e, quando misturadas, acabam nessas lágrimas que agora se multiplicam no meu rosto enquanto encaro esse pedaço de papel velho e acinzentado.
      - Moça, você está bem? – ouço um dos homens da mudança perguntar. Balanço a cabeça, concordando, mas nem tento usar minha voz. Sei que ela vai sair rouca e falhada se eu tentar. – Tem certeza? – insiste, provavelmente assustado com meus soluços. Concordo mais uma vez, mas minha vontade é jogar o sofá que ele carrega contra ele.
   É assustador olhar para esta calçada depois de tanto tempo. Onze anos, três meses e seis dias. Mais assustador é lembrar as circunstâncias que me trazem de volta ao lugar onde eu cresci – uma casa de dois andares sem muito luxo, mas onde nunca faltou amor.

   Oh, perdão a falta de explicação, nunca fui muito boa em contar histórias, ainda mais aquelas que me destroçam por dentro e, bem... Provocam esse bichinho chamado saudade. Vou tentar, de qualquer forma. Esta foto foi tirada em frente à nossa casa, pouco antes da comemoração da segunda promoção do meu pai. Ele estava trabalhando há alguns anos na mesma empresa e era considerado o melhor no que fazia, por isso mesmo era sempre o primeiro a ser promovido. Dá para concluir que ele é o homem na foto, certo?
        Não precisa ser nenhum perito em fotografias para deduzir que a mulher que o olha é infinitamente apaixonada por ele. Logo, é minha mãe. Mamãe sempre amou chapéus e aquele era o favorito dela. Papai o deu a ela no trigésimo aniversário de casamento dos dois e ela sempre o usava em ocasiões especiais. Como as promoções de papai.
       A pessoa que bateu a foto é um completo estranho para mim. E devia ser para os dois também. Aliás, a foto sempre me pareceu tão espontânea que chuto dizer que a pessoa tirou-a sem avisar e depois entregou a meus pais. Eu não estava em Nova York naquele mês, estava viajando com alguns amigos. Só descobri a história toda graças à data na fotografia e ao relato picotado que meus avós me deram depois do incidente.
    Segundo o que vovó disse, eles planejavam passar rapidamente na empresa de meu pai para que oficializassem a promoção e depois fariam um piquenique no Central Park – parque preferido deles, já que foi onde se conheceram -, por isso a cesta e a bolsa. Mas eles nunca saíram da empresa. Nunca fizeram o piquenique.
      Eu poderia ter contado o fim no começo, mas toda boa história reserva os dramas para o final, certo? Bom, meu pai trabalhava em um dos prédios do World Trade Center. E estava pisando no chão de um deles quando, juntamente com a minha mãe, morreu no ataque de onze de setembro. Papai nunca oficializou sua segunda promoção. Mamãe nunca mais usou aquele chapéu. Nenhum dos dois nunca mais sorriu para mim.
      Demorei nove anos para ter coragem de voltar a Nova York. E mais dois anos e três meses para voltar a pisar nesta calçada, onde esta fotografia foi batida por um (provavelmente) estranho.
       Esta foto só chegou às minhas mãos porque ficou dentro do carro de meu pai, que estava estacionado a uns dois quarteirões do maldito prédio onde eles morreram. Ela estava dentro da cesta, bem ao lado do chapéu das ocasiões especiais. 
      - Onde eu ponho isto, senhorita? – outro homem pergunta, carregando uma mesa de centro. Balanço a cabeça e expulso as últimas lágrimas dos meus olhos.
        - Pode por na sala. – respondo. E completo baixinho para só ela ouvir – Mamãe sempre disse que valoriza o ambiente

"Triste é não chorar
Sim, eu também chorei
E não, não há nenhum remédio 
Pra curar essa dor"

(Ainda não passou, Nando Reis)


Nem acredito que ressuscitei o CBBB depois de tanto tempo! D: Como senti falta disso aqui. Provavelmente vocês nem se lembram da minha existência e essa postagem nem vai ter comentários, mas tô realmente feliz de voltar a escrever. Nem sei direito por que parei... Bom, esse texto é uma participação na Edição Visual do Projeto Bloínquês. Tá meio uma droga, mas é o que tem pra hoje HAUSH' :3