25 de janeiro de 2013

Coleira do amor

1º lugar - Edição Solte o Verbo, Projeto Bloínquês

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É estranho observar como a palavra ciúme está atrelada a pronomes possessivos. O ciumento, invariavelmente, justifica seu sentimento como medo de que lhe tirem o que (ou quem) é seu. “Ser seu”. Será mesmo que podemos aplicar pronomes possessivos a pessoas? Será mesmo que pessoas conseguem pertencer a alguém assim?
        Imaginemos um cachorro passeando com seu dono. Esse cachorro usa uma coleira para que não fuja e uma placa de identificação para indicar a quem pertence. Seu dono o ama e o cão sabe disso; mas, às vezes, aquela coleira o irrita e ele corre contra ela, mesmo que aquilo machuque seu pescoço. O cachorro sente vontade de ser livre, de correr, de respirar o ar que está mais à frente. Se ele for fiel, vai voltar a seu dono, estando ou não com correia. Seu dono, porém, sente medo de que seu cãozinho o deixe, então continua a prendê-lo toda vez que eles saem para passear na rua.
         É isso que o ciúme é: Uma coleira com placa de identificação. O ciumento é como o dono que teme perder seu animal amado para sempre. A vítima do ciumento é como o cão que sente necessidade de ser livre, de sentir o ar da vida.
         A comparação acima não diz respeito apenas a relacionamentos amorosos. Diz respeito também a ciumentos que não aceitam dividir seu melhor amigo; pais que não conseguem ver seus filhos namorando; filhos que não aceitam que seus pais divorciados namorem outras pessoas; irmãos que superprotegem as irmãs (ou vice-versa)... Infinitos são os exemplos, mas o sentimento de posse é um só. 
         Contudo, sejamos razoáveis. É impossível não sentir ciúme. Afinal, é um sentimento humano, assim como amor, raiva, angústia. Senti-lo faz parte de viver e, inclusive, mostra que aquele objeto (ou aquela pessoa) é importante para nós. A questão, como já de praxe, é a moderação, uma vez que tudo que é demais sobra.
         E, como em um ciclo que se fecha, volto à pergunta: “Será mesmo que pessoas conseguem pertencer a alguém assim?”. Não, não conseguem. Se o próprio cachorro, que é um ser irracional, tenta fugir da coleira por se sentir sufocado, imagine um ser humano, que é perfeitamente racional e capaz de perceber a prisão à qual está sendo submetido? A sensação de liberdade é necessária ao ser humano. Sem ela, sentimo-nos enforcados, presos, “acoleirados”. E, sinceramente, não há amor no mundo que resista a isso.
         Na verdade, tudo se resume a uma frase: "Se você ama alguém, deixe-o livre: se ele voltar, é seu; se não, nunca foi"*.

*Não coloquei o autor da frase por ter encontrado vários autores diferentes para ela e não saber qual é o certo. 

Para o projeto Bloínquês (: 

2 comentários:

Jéssica Monalisa disse...

Gostei do texto. Tento sempre lidar com esse sentimento para não machucar nem censurar quem eu amo. É bem difícil, mas creio que estou no caminho certo. Abraço.

Marcos de Sousa disse...

Acredito que quem ama não deixa partir, dá boas razões para o outro ficar.
Quanto ao ciúme, é bom, se moderado. Significa amor, carinho, proteção. Tudo, com exagero, mata e fere.

O mundo sob o meu olhar