18 de janeiro de 2013

Meus comprimidos sentimentais

2º lugar
. . .

Do meu quarto que é ao lado do seu, 18 de janeiro de 2013



 Mamãe,

       Acho graça nessas minhas cartas de gaveta que nunca serão lidas por ninguém, nem mesmo pelos destinatários. Você sabe que eu tenho mania de botar os sentimentos em papéis, uma vez que sou ruim em demonstrá-los. Se bem que você me conhece tanto que eu nem preciso demonstrar muito para você perceber quando as coisas vão bem ou mal, não é? E ultimamente tanta coisa vai mal que eu nem tenho forças para tentar sorrir mais.
    “Nossa, quanto drama para uma adolescente!”, posso ouvir você resmungando enquanto mastiga mais um dos ovinhos de amendoim que você tanto ama. É, muito drama mesmo. Mas é isso que eu sou. Um drama ambulante com um tanque de lágrimas reserva. Agradeça a Deus por eu só recorrer a elas de vez em quando, mamãe, senão já teríamos um segundo oceano Atlântico em formação. Na verdade nem seria tão ruim. Já que Minas não tem mar, seria simpático colocar logo um oceano.
        “Olha o exagero de detalhes! Você sempre estraga seus textos assim, Letícia!”, consigo escutar você me dizendo enquanto revira os olhos. Tudo bem, mamãe, vou parar de enrolar por aqui. É que na verdade eu não sei bem como começar. Sou melhor com cartas de dramalhão, mas esta não é uma delas.
        Vou tentar mesmo assim. Vamos lá... 
       Sabe, nunca fui muito boa com emoções, sempre me embolo com elas e acabo empurrando-as garganta abaixo, como aqueles comprimidos imensos que a gente é obrigado a engolir de vez em quando. Só que eu engulo sem água. 
2348697628_1c73e3127b_z_large       Bom, mas o que eu queria dizer mesmo é que eu te amo. Sei que é imaturo e imbecil da minha parte dizer isso por carta, sem nem um abraço ou um sorriso. Mas, considerando a minha deficiência emocional, isso já é muito. E também queria completar com um “Eu estou aqui”. A frase pode parecer meio perdida, mas você entende bem o que eu quis dizer com isso, não é? Quem melhor do que eu para conhecer todos os nossos problemas?
         Aliás, queria fazer uma pergunta também: Como você consegue engolir, sei lá, uns quinhentos sapos por dia e ainda andar em cima daqueles sapatos de salto sem nem tropeçar? Eu cairia depois do primeiro desaforo. Melhor que isso, faria questão de tirá-los e arremessá-los na cabeça do sem noção que me afrontasse. Mas você não. Você é tão calma, centrada, comedida. Você é tão... sei lá. 
         Acho que essa carta de gaveta já está grande demais para o envelope minúsculo que montei com aqueles papéis que você queria jogar fora. Eu nunca jogo nada fora mesmo. Além disso, o envelope com o adesivo da Betty Boop ficou altamente charmoso, quase tanto quanto minha linda carinha de anjo.
         É isso, dona Sheila. Com todas as brigas, implicâncias e minha mania de te irritar a cada cinco minutos (ok, ok, dois minutos), você é minha mãe, né? Me carregou para lá e para cá por nove meses e duas semanas, então acho que o mínimo que eu te devo é um “Conta comigo”. Para tudo, sempre. 

(P.s.: Eu te amo tanto que até te empresto aquela sandália de plataforma que você tanto ama. E até te dou aquele meu prendedor de cabelo novo. Ficou melhor em você do que em mim mesmo...
P.s.2: Você ainda está me devendo o strogonoff de frango!)

Um abraço de urso bem gigante,
Letícia .

2º lugar
Mais uma vez, texto para  a Edição Cartas do Projeto Bloínquês (:

Um comentário:

Carolina Santiago disse...

Eu também sou assim, não consigo demonstrar sentimentos e acabo por despejar tudo no papel.
Toda mãe merece carinho de todas as formas e a sua deve estar muito orgulhosa de você, porque mesmo com sua "deficiência emocional" (eu dei risada disso, desculpa haha) você consegue lidar com isso (tanto que consegue falar disso).

Adorei seu blog e estou seguindo. Quando puder, dá uma conferida no meu!

Beijinhos <3