18 de janeiro de 2013

Sinônimo de lembrança é fotografia

Dezembro de 2012, Nova York


Nunca fui muito amiga das lembranças. Em todos os meus duzentos e tantos poemas, eu nunca falei delas. Também nunca fui muito fã de fotografias. Não gosto de congelar momentos nem de “eternizá-los”. Na verdade, acho que o que me desagrada mesmo é que lembranças e fotografias são sinônimas e, quando misturadas, acabam nessas lágrimas que agora se multiplicam no meu rosto enquanto encaro esse pedaço de papel velho e acinzentado.
      - Moça, você está bem? – ouço um dos homens da mudança perguntar. Balanço a cabeça, concordando, mas nem tento usar minha voz. Sei que ela vai sair rouca e falhada se eu tentar. – Tem certeza? – insiste, provavelmente assustado com meus soluços. Concordo mais uma vez, mas minha vontade é jogar o sofá que ele carrega contra ele.
   É assustador olhar para esta calçada depois de tanto tempo. Onze anos, três meses e seis dias. Mais assustador é lembrar as circunstâncias que me trazem de volta ao lugar onde eu cresci – uma casa de dois andares sem muito luxo, mas onde nunca faltou amor.

   Oh, perdão a falta de explicação, nunca fui muito boa em contar histórias, ainda mais aquelas que me destroçam por dentro e, bem... Provocam esse bichinho chamado saudade. Vou tentar, de qualquer forma. Esta foto foi tirada em frente à nossa casa, pouco antes da comemoração da segunda promoção do meu pai. Ele estava trabalhando há alguns anos na mesma empresa e era considerado o melhor no que fazia, por isso mesmo era sempre o primeiro a ser promovido. Dá para concluir que ele é o homem na foto, certo?
        Não precisa ser nenhum perito em fotografias para deduzir que a mulher que o olha é infinitamente apaixonada por ele. Logo, é minha mãe. Mamãe sempre amou chapéus e aquele era o favorito dela. Papai o deu a ela no trigésimo aniversário de casamento dos dois e ela sempre o usava em ocasiões especiais. Como as promoções de papai.
       A pessoa que bateu a foto é um completo estranho para mim. E devia ser para os dois também. Aliás, a foto sempre me pareceu tão espontânea que chuto dizer que a pessoa tirou-a sem avisar e depois entregou a meus pais. Eu não estava em Nova York naquele mês, estava viajando com alguns amigos. Só descobri a história toda graças à data na fotografia e ao relato picotado que meus avós me deram depois do incidente.
    Segundo o que vovó disse, eles planejavam passar rapidamente na empresa de meu pai para que oficializassem a promoção e depois fariam um piquenique no Central Park – parque preferido deles, já que foi onde se conheceram -, por isso a cesta e a bolsa. Mas eles nunca saíram da empresa. Nunca fizeram o piquenique.
      Eu poderia ter contado o fim no começo, mas toda boa história reserva os dramas para o final, certo? Bom, meu pai trabalhava em um dos prédios do World Trade Center. E estava pisando no chão de um deles quando, juntamente com a minha mãe, morreu no ataque de onze de setembro. Papai nunca oficializou sua segunda promoção. Mamãe nunca mais usou aquele chapéu. Nenhum dos dois nunca mais sorriu para mim.
      Demorei nove anos para ter coragem de voltar a Nova York. E mais dois anos e três meses para voltar a pisar nesta calçada, onde esta fotografia foi batida por um (provavelmente) estranho.
       Esta foto só chegou às minhas mãos porque ficou dentro do carro de meu pai, que estava estacionado a uns dois quarteirões do maldito prédio onde eles morreram. Ela estava dentro da cesta, bem ao lado do chapéu das ocasiões especiais. 
      - Onde eu ponho isto, senhorita? – outro homem pergunta, carregando uma mesa de centro. Balanço a cabeça e expulso as últimas lágrimas dos meus olhos.
        - Pode por na sala. – respondo. E completo baixinho para só ela ouvir – Mamãe sempre disse que valoriza o ambiente

"Triste é não chorar
Sim, eu também chorei
E não, não há nenhum remédio 
Pra curar essa dor"

(Ainda não passou, Nando Reis)


Nem acredito que ressuscitei o CBBB depois de tanto tempo! D: Como senti falta disso aqui. Provavelmente vocês nem se lembram da minha existência e essa postagem nem vai ter comentários, mas tô realmente feliz de voltar a escrever. Nem sei direito por que parei... Bom, esse texto é uma participação na Edição Visual do Projeto Bloínquês. Tá meio uma droga, mas é o que tem pra hoje HAUSH' :3                                                                                        

Um comentário:

Lara Vic. disse...

Uma droga? Kkkkk acho que dos que eu li da edição até agora é o meu favorito. Super criativo, eu estava tão envolvida que quando li world trade center meu coração gelou. Uma pena, uma pena que eles morreram, que seus sorrisos se perderam em meio a uma tragédia tão inútil, que deixaram uma garota para viver nesse mundo louco.
Enfim, perfeito kkkk
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